Imunoterapia contra câncer de pulmão: estudo aponta para diagnóstico mais preciso
Imunoterapia contra câncer de pulmão: estudo aponta para diagnóstico mais preciso

Imunoterapia contra câncer de pulmão: estudo aponta para diagnóstico mais preciso

Nova esperança no tratamento do câncer de pulmão A imunoterapia tem revolucionado o combate ao câncer de pulmão, oferecendo a pacientes com doença avançada a chance de manter a doença sob controle por anos, um cenário antes incomum quando a quimioterapia era a principal linha de tratamento. Diferente de abordagens tradicionais que atacam diretamente as […]

Resumo

Nova esperança no tratamento do câncer de pulmão

A imunoterapia tem revolucionado o combate ao câncer de pulmão, oferecendo a pacientes com doença avançada a chance de manter a doença sob controle por anos, um cenário antes incomum quando a quimioterapia era a principal linha de tratamento. Diferente de abordagens tradicionais que atacam diretamente as células tumorais, a imunoterapia atua fortalecendo o sistema imunológico para que ele reconheça e elimine o câncer. Isso é crucial, pois tumores frequentemente desenvolvem estratégias para evadir a vigilância natural do organismo. A eficácia da imunoterapia, contudo, varia significativamente entre os pacientes, tornando a identificação antecipada de quem responderá ao tratamento um dos maiores desafios atuais na oncologia. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Einstein Hospital Israelita.

Um estudo recente, publicado na revista iScience e liderado por pesquisadores brasileiros, incluindo cientistas do Einstein, traz um avanço promissor nesse sentido. A pesquisa identificou, através da análise de amostras de sangue, características do sistema imunológico e do metabolismo associadas à resposta ou resistência à imunoterapia em pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas em estágio metastático (estágio 4). Esses achados abrem caminho para o desenvolvimento de um exame capaz de estimar, antes mesmo da primeira dose, a probabilidade de um paciente se beneficiar desta forma de tratamento.

Desvendando a resposta imune no sangue

Atualmente, a detecção da proteína PD-L1 em amostras tumorais é um dos marcadores mais utilizados para prever a resposta à imunoterapia. No entanto, a obtenção dessas amostras, especialmente em casos de doença metastática, pode envolver procedimentos invasivos como biópsias guiadas por ultrassom, e o tecido coletado pode não representar a totalidade das características do tumor. Além disso, a presença de PD-L1 não é um fator decisivo, pois pacientes sem a proteína também podem responder ao tratamento, e a ausência total não garante a ineficácia.

A pesquisa do Einstein buscou justamente por marcadores mais acessíveis, utilizando o próprio sistema imune como guia. Os cientistas analisaram amostras de sangue de pacientes antes do início do tratamento, comparando aqueles que responderam positivamente com os que não obtiveram benefício. Nos respondedores, observou-se uma maior frequência de linfócitos T ativados (células de defesa prontas para o combate), identificados por marcadores como CD69, TCF-1 e CXCR3. Também foi detectada uma maior presença de monócitos não clássicos, que auxiliam na atração de outras células imunes para o tumor.

Um achado particularmente relevante foi a identificação do metabólito LPC-18:2, ligado ao metabolismo de gorduras. Níveis elevados desta molécula parecem inibir o crescimento de células cancerígenas ao regular a enzima ACSL5. Utilizando inteligência artificial, os pesquisadores constataram que o LPC-18:2 é um dos principais indicadores de resposta à imunoterapia, contribuindo para um modelo com 95% de precisão na identificação de pacientes que se beneficiarão do tratamento, embora essa precisão ainda precise ser validada em estudos maiores.

Novos caminhos para terapias personalizadas

O estudo também revelou que o estado de ativação dos linfócitos CD4, e não apenas sua quantidade total, é um fator importante. Pacientes com menor quantidade dessas células, mas com uma proporção maior de CD4 ativados, apresentaram maior sobrevida livre de progressão da doença. Isso sugere que a capacidade de ação das células de defesa, e não apenas sua presença, é determinante para o sucesso do tratamento.

Para os pacientes que não respondem à imunoterapia combinada com quimioterapia (cerca de 50% a 60% dos casos), o sangue revelou um cenário de “frenagem” do sistema imune, com moléculas inibidoras e células produtoras de IL-10, que desativa a resposta inflamatória. Além disso, níveis elevados de xantina e hipoxantina criam um ambiente químico protetor para o câncer, explicando por que o bloqueio de um único ponto (como PD-1) pode não ser suficiente.

A pesquisa avançou ao testar em laboratório a combinação de dois anticorpos: pembrolizumabe (bloqueador de PD-1) e ipilimumabe (bloqueador de CTLA-4). Em pacientes que não responderam ao tratamento inicial, essa combinação conseguiu reativar as células de defesa, sugerindo um potencial para superar a resistência tumoral. Essa descoberta pode guiar o uso de terapias combinadas para grupos específicos de pacientes, otimizando o tratamento e minimizando riscos e custos associados ao ipilimumabe.

A concordância dos resultados obtidos a partir de análises sanguíneas com dados de biópsias tumorais reforça a viabilidade de usar o sangue como fonte de biomarcadores, tornando a avaliação menos invasiva. A técnica utilizada, citometria de fluxo, já é comum em laboratórios clínicos, o que pode facilitar a incorporação futura desses biomarcadores. Os próximos passos incluem a validação em novos grupos de voluntários e um teste clínico para confirmar se o perfil sanguíneo pode, de fato, orientar decisões terapêuticas. A expectativa é que esses avanços levem a uma imunoterapia cada vez mais personalizada, auxiliando a equipe médica na tomada de decisões, sem substituir a avaliação clínica completa do paciente.

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