As eleições presidenciais trazem à tona o debate sobre o futuro da saúde pública no Brasil, com os principais candidatos focando na redução das extensas filas do Sistema Único de Saúde (SUS). Uma média de 57 dias de espera por atendimento especializado em 2024, segundo o jornal O Globo, evidencia o desafio. A tecnologia, em especial a digitalização, inteligência artificial (IA) e telemedicina, surge como um denominador comum nas propostas para ampliar o acesso a consultas, exames e especialistas. No entanto, as divergências aparecem no modelo de parceria com a rede privada, na organização do sistema público e nas abordagens específicas para saúde mental e da mulher.
A promessa de agilizar o acesso aos serviços de saúde é um ponto central nas campanhas. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em caso de reeleição, pretende impulsionar o programa Agora tem Especialistas, que busca parcerias com hospitais privados por meio de créditos financeiros ou quitação de dívidas. Sua plataforma também inclui investimentos em novos equipamentos, maior integração entre os níveis de atenção e o uso de tecnologia para transparência nas filas. Flávio Bolsonaro (PL) foca na otimização de equipamentos ociosos da rede privada e no uso de IA para agendamentos. Augusto Cury (Avante) propõe um atendimento remoto em até 30 minutos e uma plataforma nacional integrada para teleconsultas. Ronaldo Caiado (PSD) visa reduzir pela metade o tempo de espera nas filas prioritárias até 2030, alterando os critérios de priorização para risco, gravidade e vulnerabilidade. Renan Santos (Missão) ecoa essa linha, enquanto Romeu Zema (Novo) defende parcerias com a iniciativa privada com metas claras de quantidade e qualidade.
Enfrentando os Gargalos da Saúde Mental e da Mulher
A saúde mental, um dos maiores desafios do SUS, também está no centro das discussões. Lula e Caiado propõem ampliar os investimentos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e abordam o combate ao vício em apostas, com o atual presidente adicionando foco no cuidado psicossocial de mulheres vítimas de violência e no acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Flávio Bolsonaro menciona o cuidado com crianças com TDAH, depressão, ansiedade e idosos com doenças neurológicas. Augusto Cury defende uma política nacional de saúde mental abrangente, com ênfase na prevenção de ansiedade, automutilação e suicídio, além de “educação emocional”. Zema propõe o fortalecimento da rede via financiamento compartilhado, enquanto Renan Santos não apresenta propostas específicas para a área.
Na saúde da mulher, Lula foca no tratamento de doenças ginecológicas crônicas, diagnóstico precoce de cânceres, distribuição gratuita de contraceptivos e insumos menstruais, além da redução da mortalidade materna. Flávio Bolsonaro propõe ampliar o acesso a exames e expandir unidades móveis de saúde da mulher. Cury sugere políticas de saúde preventiva, atenção materno-infantil, planejamento reprodutivo e foco na saúde mental e autoestima de meninas. Caiado estabeleceu a meta de reduzir a mortalidade materna em 30% até 2030, além de aprimorar o rastreamento de câncer, o tratamento de doenças ginecológicas e o cuidado com o climatério e menopausa. Zema aborda o cuidado com gestantes e a integração com a rede de segurança para mulheres vítimas de violência. Renan Santos reconhece a saúde como prioridade para as mulheres, mas não apresenta propostas específicas para o segmento.
Atenção Básica e Prevenção: Pilares para o Futuro
A atenção básica e a prevenção de doenças também são temas recorrentes. Lula prevê a formação de profissionais de saúde da família, a continuidade do Mais Médicos em áreas vulneráveis e o fortalecimento da vacinação. Flávio Bolsonaro planeja ampliar a Estratégia Saúde da Família (ESF), criar um programa para idosos, ampliar exames preventivos e fomentar a produção nacional de vacinas. Cury investirá em prevenção, acompanhamento familiar e equipes multiprofissionais, com um projeto específico para detecção precoce de câncer. Caiado busca a integração de todos os serviços de saúde para garantir a continuidade do cuidado, com políticas de prevenção e antecipação de riscos, além de ações focadas em saúde cardiovascular, câncer e cuidado infantil e idoso. Zema pretende fortalecer a ESF com ampliação de cobertura e uso de ferramentas digitais, priorizando vacinação, doenças crônicas, hábitos saudáveis e populações indígena e idosa. Renan Santos almeja que 80% dos casos sejam resolvidos na Atenção Primária, com um sistema digital para vigilância epidemiológica preditiva e compensações tributárias para atividades esportivas.
As propostas de todos os candidatos, de alguma forma, apontam para um SUS mais eficiente e acessível, com a tecnologia como ferramenta central. As diferenças residem nas estratégias para envolver o setor privado, na priorização de áreas específicas e na profundidade das ações propostas para desafios complexos como a saúde mental e a saúde da mulher. O eleitor terá a tarefa de avaliar qual visão se alinha melhor com suas expectativas para o futuro da saúde no Brasil.
