O legado de um gigante das ciências
Pedro Nunes, nascido em Alcácer do Sal em 1502, é uma figura ímpar na história da ciência portuguesa e mundial. Sua trajetória acadêmica e científica foi marcada por feitos notáveis: foi o primeiro professor catedrático de matemática da Universidade de Coimbra em 1544, o primeiro Cosmógrafo-Mor do reino em 1547, cavaleiro da Ordem Militar de Cristo e conselheiro real. Sua erudição era tão vasta que contemporâneos o comparavam a Arquimedes, e influentes personalidades como o cosmógrafo inglês John Dee o descreveram como “homem eruditíssimo, único depósito e coluna das ciências matemáticas”. O Papa Gregório XIII chegou a solicitar sua ajuda na reforma do calendário. Atualmente, ele é o único cientista e educador homenageado no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, um testemunho de sua importância histórica.
Apesar de tamanha notoriedade, a biografia de Pedro Nunes é pontuada por mistérios, especialmente no que diz respeito aos seus últimos anos. Ao contrário do padrão usual, onde a fase final da vida de figuras proeminentes é bem documentada, no caso de Nunes, o que se sabe é sobre seu nascimento em Alcácer do Sal, mas seu local de falecimento e sepultamento permanecem desconhecidos. Não há registros notariais de seu testamento ou funeral, documentos que eram praxe na época. Essa escassez de informações sugere um possível isolamento voluntário, possivelmente motivado por dissabores pessoais e profissionais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela reportagem.
Desafetos e escândalos familiares
O afastamento de Pedro Nunes da Universidade de Coimbra, onde seu sucessor na cátedra de matemática foi nomeado sem sua consulta, pode indicar uma perda de prestígio na corte e o surgimento de inimizades. Um evento pessoalmente doloroso foi o escândalo envolvendo sua filha caçula, Guiomar, a “dama da cutilada”. Em 1578, após um noivo adiar indefinidamente o casamento, Guiomar, em um ato de fúria pública, feriu o rosto do rapaz com um canivete durante uma audiência perante o bispo. Guiomar foi recolhida a um convento, e especula-se que este episódio, somado à sua já debilitada saúde, tenha sido o golpe final para Pedro Nunes, que acredita-se ter morrido no mesmo ano.
O enigma das origens
Ainda mais intrigante que as lacunas sobre seus últimos anos é a completa ausência de informações sobre seus antecedentes familiares. Sabe-se que ingressou na Universidade de Salamanca aos 16 anos, mas sua vida anterior a esse marco, incluindo a identidade de seus pais e ancestrais, é um livro fechado. Recentemente, a historiadora Maria Teresa Lopes Pereira, em seu livro “Pedro Nunes: em busca de suas origens”, apresentou uma hipótese instigante que sugere que o próprio Pedro Nunes pode ter sido o responsável por obscurecer sua própria história. Os motivos para tal atitude permanecem como um mistério a ser desvendado.
