Da observação à vacina: mais de 150 anos de ciência para combater o HPV
Da observação à vacina: mais de 150 anos de ciência para combater o HPV

Da observação à vacina: mais de 150 anos de ciência para combater o HPV

A luta contra o câncer de colo de útero, uma doença que ceifa a vida de cerca de 20 mulheres diariamente no Brasil, é quase 100% prevenível. No entanto, ainda figura como o tipo de câncer que mais mata mulheres com até 35 anos no país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) almeja erradicar a […]

Resumo

A luta contra o câncer de colo de útero, uma doença que ceifa a vida de cerca de 20 mulheres diariamente no Brasil, é quase 100% prevenível. No entanto, ainda figura como o tipo de câncer que mais mata mulheres com até 35 anos no país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) almeja erradicar a patologia como problema de saúde pública até 2100, mas esse objetivo só se torna tangível graças a mais de um século e meio de pesquisa científica.

As primeiras pistas sobre os fatores de risco para o câncer de colo de útero surgiram em 1842, com o médico italiano Domenico Rigoni-Stern. Ao analisar registros de mortalidade em Verona, ele notou uma incidência maior da doença entre mulheres casadas, viúvas e prostitutas, em comparação com freiras e virgens. Embora a causa exata permanecesse um mistério, a observação sugeria uma conexão com a atividade sexual.

A investigação dessa hipótese levou décadas. Ao longo do século XX, pesquisadores acumularam evidências que ligavam o câncer de colo de útero à vida sexual ativa, mas o agente causal ainda era desconhecido. Foi na década de 1970 que o virologista alemão Harald zur Hausen formulou a teoria de que o Papilomavírus Humano (HPV) seria o responsável. Na época, o HPV era conhecido principalmente por causar verrugas genitais.

Zur Hausen propôs que certos tipos de HPV poderiam alterar as células do colo do útero, levando a displasias — lesões pré-cancerosas com potencial de evoluir para tumores malignos. Sua equipe, ao analisar amostras de câncer, encontrou material genético do HPV, consolidando a relação entre o vírus e a doença, um feito que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 2008.

A consolidação da ciência e o nascimento da vacina

Nas décadas seguintes, o avanço das técnicas laboratoriais permitiu aos cientistas confirmar a relação de causalidade entre o HPV e o câncer de colo de útero. Descobriu-se também que o vírus estava associado a outros tipos de câncer, como os de vagina, vulva, ânus, pênis e orofaringe. A pesquisa revelou ainda que o HPV é uma família com mais de 200 tipos, sendo a maioria de baixo risco, enquanto pelo menos 12 são classificados como de alto risco, com os tipos 16 e 18 sendo os mais carcinogênicos.

A descoberta abriu caminho para uma estratégia inédita: treinar o sistema imunológico para reconhecer e combater o HPV antes que ele cause infecções. No final dos anos 1980, o imunologista australiano Ian Frazer e o virologista chinês Jian Zhou desenvolveram partículas semelhantes a vírus (VLPs), que imitam a estrutura externa do HPV sem conter seu material genético. Essas VLPs estimulam a produção de anticorpos, preparando o organismo para combater o vírus real.

“É como se colocasse apenas a cápsula [do vírus] direto em contato com o sistema imune da pessoa. Ele vai produzir anticorpos contra aquela cápsula. Toda vez que você tem anticorpos circulando e você tem contato com o vírus, ele é bloqueado e não entra”, explica J úlio Teixeira, médico e professor da Unicamp. A partir dessa base, a busca por transformar as VLPs em vacinas eficazes ganhou força.

Imunização e expansão da proteção

Em 2006, a primeira vacina contra o HPV, focada nos tipos 16 e 18 e posteriormente ampliada para incluir os tipos 6 e 11 (responsáveis pela maioria das verrugas genitais), foi aprovada nos Estados Unidos. No Brasil, a vacina quadrivalente foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014, com produção nacional via transferência de tecnologia entre a Merck Sharp & Dohme (MSD) e o Instituto Butantan.

Vinte anos após a aprovação inicial, países como EUA, Austrália, Brasil e algumas nações europeias já observam reduções significativas no número de lesões pré-cancerosas, na prevalência do vírus e na incidência de câncer de colo de útero. Atualmente, o esquema de vacinação de rotina no SUS oferece dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de abranger grupos específicos com condições de imunossupressão ou em situações de vulnerabilidade, e adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não foram imunizados até o final deste ano.

A prioridade em vacinar os mais jovens se deve à maior resposta de anticorpos nessa faixa etária e ao fato de a vacina prevenir novas infecções, não tratando infecções existentes. Contudo, a vacinação continua benéfica para pessoas mais velhas, protegendo contra tipos de HPV aos quais ainda não foram expostas.

Em 2023, uma formulação nonavalente da vacina, que protege contra cinco tipos adicionais de HPV de alto risco, tornou-se disponível na rede particular. Há discussões em andamento para sua inclusão no SUS, e o Ministério da Saúde destinou R$ 495,9 milhões para a construção de uma nova fábrica no Instituto Butantan, visando viabilizar a produção nacional de imunizantes contra o HPV. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde, Instituto Butantan e reportagens especializadas.

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