A popularização de vídeos que expõem a composição de alimentos industrializados tem gerado debate sobre a precisão e o impacto dessas demonstrações visuais.
Nas redes sociais, um formato de vídeo tem ganhado destaque: criadores desmontam visualmente produtos ultraprocessados, como salgadinhos e refrigerantes, apresentando seus ingredientes de forma explícita. A iniciativa, embora bem-intencionada em conscientizar o público sobre o que consome, levanta questionamentos sobre a acurácia científica das representações e o potencial de gerar alarme indevido.
Especialistas em nutrição e ciência de alimentos concordam que esses vídeos podem ter um papel positivo ao despertar o interesse dos consumidores para a lista de ingredientes, muitas vezes ignorada ou de difícil compreensão nos rótulos. No entanto, ressaltam a necessidade de assistir a esse tipo de conteúdo com cautela, pois as representações visuais nem sempre correspondem a uma desconstrução tecnicamente precisa dos produtos.
Um dos principais desafios apontados é a impossibilidade de determinar as proporções exatas de cada componente em um alimento industrializado. Embora as regulamentações no Brasil e nos Estados Unidos exijam a listagem de ingredientes em ordem decrescente de quantidade, a proporção específica de cada um não é informada. Essa falta de detalhe pode levar a inferências imprecisas quando os ingredientes são apresentados visualmente em recipientes separados.
A criadora de conteúdo conhecida como Science Snitch, que se dedica a explicar a ciência por trás dos alimentos, afirma que seu processo envolve a análise de rótulos e informações nutricionais para chegar a estimativas precisas. Contudo, seu perfil não detalha sua formação acadêmica ou experiência na área, e ela não forneceu referências bibliográficas para suas demonstrações.
Representações visuais e a busca pela clareza
Flávia Luiza, por trás do perfil “Rótulo Revelado”, reconhece que seus vídeos apresentam apenas uma representação visual dos ingredientes, sem conhecimento das proporções exatas, e faz questão de deixar isso claro. Formada em negócios imobiliários, ela busca fidelidade visual, mas ressalta que suas postagens não substituem análises laboratoriais ou o parecer de profissionais da área.
Mariana Ribeiro, nutricionista do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), vê potencial educativo nesses vídeos, mas pondera que eles não resolvem a questão dos ultraprocessados, funcionando mais como uma ferramenta de conscientização adicional. Ela compara essa estratégia à adoção de rótulos frontais pela Anvisa, que indicam alto teor de açúcar, gordura e sódio, e que já demonstraram influenciar o comportamento de compra dos consumidores.
O perigo do “terrorismo nutricional”
Giovanna Pisanelli, doutora em ciência de alimentos e idealizadora do aplicativo “Desrotulando”, alerta para o risco de esses vídeos induzirem a associação automática entre aditivos químicos e perigo à saúde. Ela explica que nem todos os aditivos são prejudiciais; alguns são essenciais para a segurança microbiológica ou para a conservação, enquanto outros podem ter apenas função estética sem agregar valor nutricional.
Laís Botelho, professora da UFRJ, complementa que o apelo ao medo, embora possa gerar uma mudança comportamental inicial, é problemático quando não acompanhado de alternativas e informações sobre como fazer escolhas mais saudáveis. Essa abordagem pode levar as pessoas a evitarem a informação por associarem-na a emoções negativas, diminuindo sua autoconfiança em fazer escolhas alimentares.
Apesar das ressalvas, especialistas convergem na importância de aumentar a conscientização sobre alimentação saudável. Acredita-se que, mesmo que o impacto inicial seja pelo choque visual, esses conteúdos podem incentivar a busca por informação e educação alimentar. A ciência de alimentos enfrenta o desafio de traduzir informações técnicas para uma linguagem acessível, e iniciativas como a do “Desrotulando” buscam oferecer substitutos e orientações sobre moderação.
O cenário das redes sociais é complexo, com a proliferação de informações sobre alimentação, algumas baseadas em ciência e outras em “terrorismo nutricional”, seja por ignorância ou para gerar engajamento. Contudo, o aumento de profissionais produzindo conteúdo responsável e baseado em evidências, especialmente após a pandemia, sugere um movimento gradual de disseminação de conhecimento mais confiável.
