A vida e o fim trágico de Betito Tavares, ator que lutou contra a esquizofrenia
Na manhã de 14 de dezembro de 2022, o ator Betito Tavares, de 42 anos, saiu de casa para o trabalho em Fortaleza, sem que sua irmã, Milena Tavares, pudesse imaginar que seria a última vez que o veria. Betito não chegou ao seu destino. Horas depois, a família recebeu a notícia de seu suicídio, um desfecho devastador para uma família que há anos convivia com a esquizofrenia do artista. Milena relembra o irmão com carinho, contrastando a imagem do jovem sonhador que deixou o Recife nos anos 1990 em busca de uma carreira na televisão com os últimos anos marcados pela doença.
A trajetória de Betito na televisão começou como figurante na Rede Globo, enquanto acompanhava uma namorada nos estúdios. O ponto alto de sua carreira foi o personagem Cardosinho na novela “Coração de Estudante” (2002). O papel, embora secundário, marcou sua participação em uma trama de sucesso, proporcionando-lhe um sentimento de realização. No entanto, após a novela, as oportunidades na emissora foram escassas, levando Betito a sentir-se desprestigiado e frustrado. Ele buscou novas oportunidades em São Paulo, onde se dedicou à publicidade.
Milena acredita que a dificuldade em encontrar trabalho foi um gatilho para o desenvolvimento de delírios e mania de perseguição em Betito. Em 2008, quando a irmã e a mãe foram morar em São Paulo para apoiá-lo em uma peça de teatro e uma novela na Band, começaram a notar as primeiras mudanças. Betito apresentava um comportamento alterado, falava coisas sem sentido e sua personalidade parecia mudar. A situação se agravou a ponto de Milena e a mãe precisarem se trancar em um quarto devido à agressividade verbal do irmão, que se tornou cada vez mais difícil de conviver.
O agravamento da doença e o diagnóstico de esquizofrenia
O período de Betito em São Paulo foi seguido por desemprego e um retorno ao Rio de Janeiro com uma namorada. As visitas de Milena revelavam um quadro ainda mais preocupante: delírios de perseguição, a crença de estar sendo filmado e a dificuldade de manter relações sociais estáveis. Ele passou a pedir para morar na casa de amigos, mas a convivência tornou-se insustentável. Em um momento de extrema vulnerabilidade, Betito chegou a viver nas ruas, dormindo em rodoviárias, o que gerou grande angústia na família.
Em 2016, após anos de sofrimento e a dificuldade de Betito em admitir sua doença, uma amiga de Milena sugeriu a possibilidade de esquizofrenia. A descrição dos sintomas batia com o comportamento do ator. A família, então, lutou para conseguir levá-lo a um psiquiatra. Somente no ano seguinte, durante um surto em Fortaleza, Betito foi diagnosticado com esquizofrenia. A doença, um transtorno mental que afeta pensamento, sentimento e comportamento, geralmente se manifesta no fim da adolescência ou início da vida adulta e, embora sem cura, pode ser controlada com tratamento medicamentoso.
Desafios do tratamento e o uso de substâncias
O psiquiatra Mário Louzã explica que a esquizofrenia costuma surgir gradualmente, com delírios de perseguição e desconfiança sendo sintomas comuns nos primeiros episódios psicóticos. Estima-se que mais de 547 mil adultos no Brasil vivam com a condição. A psicóloga Karen Scavacini ressalta que, embora a esquizofrenia seja um fator de risco para o suicídio, ela não é a única causa. Consequências como isolamento e perda de autonomia podem agravar o quadro, mas a ajuda profissional está disponível e pode fazer a diferença. No entanto, Betito frequentemente relutava em buscar tratamento e abandonava a medicação. Durante esse período, Milena relata que ele começou a usar drogas, incluindo maconha, o que, segundo Louzã, pode ser um fator de risco para o desenvolvimento da esquizofrenia em indivíduos predispostos.
Nos últimos anos de sua vida, Betito seguiu um tratamento em Fortaleza, mas Milena expressa a dor de ver o irmão abatido e dependente de medicação. Ele se via isolado, sem amigos ou namorada, restando apenas o apoio familiar. Meses antes de sua morte, Betito começou a trabalhar com o pai e frequentava um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Contudo, ele frequentemente falava sobre suicídio, um sinal de alerta que deixou a família em constante preocupação, culminando na trágica manhã de dezembro de 2022.
As informações foram reunidas a partir de relatos da empreendedora Milena Tavares e de informações de especialistas em saúde mental.
Onde buscar ajuda:
CVV (Centro de Valorização da Vida): cvv.org.br e telefone 188.
Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio: vitaalere.com.br.
Abrases (Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio): abrases.org.br.
