Maternidade após os 40: mais comum, madura e consciente
Maternidade após os 40: mais comum, madura e consciente

Maternidade após os 40: mais comum, madura e consciente

A decisão de ser mãe mais tarde tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil, impulsionada por mudanças culturais e pela busca por autonomia. Especialistas e mulheres que vivenciam essa realidade compartilham os desafios e as alegrias dessa jornada. A apresentadora Maju Coutinho, aos 48 anos, e a montadora audiovisual Maria Rezende, que se […]

Resumo

A decisão de ser mãe mais tarde tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil, impulsionada por mudanças culturais e pela busca por autonomia. Especialistas e mulheres que vivenciam essa realidade compartilham os desafios e as alegrias dessa jornada.

A apresentadora Maju Coutinho, aos 48 anos, e a montadora audiovisual Maria Rezende, que se tornou mãe de Luzia aos 44, são exemplos de mulheres que optaram pela maternidade em idades consideradas tardias. Seus relatos, somados a casos de outras personalidades como Cláudia Raia e Sabrina Sato, trouxeram à tona a discussão sobre a maternidade após os 40. Maju Coutinho, em participação no programa Saia Justa, destacou a dificuldade em discernir a vontade genuína de ser mãe da pressão cultural. No entanto, essa pressão parece estar diminuindo, refletida no aumento de 71,8% no número de nascidos vivos de mães com 40 anos ou mais entre 2004 e 2024, segundo dados do IBGE.

Essas informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo IBGE e relatos de Maria Rezende e Maju Coutinho.

Maturidade, preocupações e novas perspectivas

Para Maria Rezende, a decisão de ter sua filha de forma independente, após congelar seus óvulos e repensar o conceito tradicional de família, veio com um profundo autoconhecimento. “Eu achava que a vida era uma linha pontilhada que eu tinha que seguir e que estava o tempo todo errando, atrasada. Aí me veio um insight: a vida é o caminho que eu fizer. Não posso estar atrasada por um tempo que não existe”, reflete.

A diferença de idade traz consigo preocupações legítimas, como o medo de não estar presente por tempo suficiente para ver os filhos crescerem. Maria, no entanto, pondera: “Esse medo que a gente tem de ser mãe mais velha e de faltar para os nossos filhos é superlegítimo. Mas muitas pessoas perdem seus pais muito cedo. Então, na verdade, nada é garantido.” Essa constatação a impulsionou a cuidar mais de si mesma, investindo em saúde e bem-estar.

Apesar das preocupações com instabilidade financeira e a ausência de licença-maternidade em casos de trabalho autônomo, muitas mulheres celebram a autonomia conquistada. Maria Rezende pontua que consolidou sua carreira profissional sem a pressão de ter filhos desde jovem, o que lhe proporcionou liberdade e independência.

Experiências diversas e a dinâmica familiar

Leila Barros Hoche, 51, vivenciou a maternidade em diferentes fases da vida. Teve seu primeiro filho aos 19 anos e a caçula, Nicole, aos 40. “Na primeira vez ainda estava descobrindo quem eu era. Aos 40, curti a maternidade com muito mais maturidade, tranquilidade e consciência”, relata. A experiência mais madura trouxe, segundo ela, uma forma mais intensa de viver cada etapa, sem se prender a receios sobre o futuro.

A psicóloga Paula Navarro, que estuda a parentalidade tardia, aponta que, embora temas como finitude possam surgir mais cedo, o que realmente impacta é a dinâmica familiar. Sua pesquisa com adultos cujos pais tinham mais de 40 anos ao nascerem revelou que, apesar de valorizarem a experiência dos pais, esses indivíduos também enfrentaram conflitos geracionais e preocupações com saúde e solidão.

A chegada de um filho mais novo em uma família com irmãos mais velhos pode reorganizar papéis. No caso de Leila, os filhos mais velhos Jhonatan e Geovanna, embora orientados a não criarem a irmã, acabaram assumindo responsabilidades importantes, especialmente em momentos de dificuldade financeira. Jhonatan, por exemplo, se vê como uma figura paterna para Nicole, enquanto Geovanna se descreve como uma “irmã adulta chatinha”. Navarro explica que o peso das tarefas, e não apenas a diferença de idade, pode transformar um irmão em figura quase parental, mas que a manutenção da autoridade pelos pais é crucial para que os irmãos permaneçam em seus papéis.

O julgamento externo e o cuidado com os pais idosos

O julgamento externo é uma constante para muitas mães mais velhas. Leila lembra de ter sido chamada de “louca”, mas aprendeu a não permitir que a opinião alheia ditasse seus sonhos. Raquel Saad, 32, frequentemente ouvia que sua mãe, Amélia, de 70 anos, parecia sua avó. Contudo, em casa, a idade nunca foi um problema, e ela cresceu com uma infância amadurecida pela convivência com mais velhos.

A pandemia trouxe à tona a vulnerabilidade dos pais idosos. Raquel, após se mudar para São Paulo, intensificou as visitas e os cuidados com a mãe, buscando um equilíbrio entre o apoio e a preservação da autonomia. A psicóloga Navarro observa que essa tensão entre cuidar e não infantilizar se manifesta na “saída do ninho”, especialmente em casos de doença, onde pais podem reter os filhos por medo da solidão e estes sentem culpa ao sair. A chave, segundo ela, é negociar escolhas com respeito à história dos pais.

A qualidade da presença, e não a idade, tornou-se o principal medidor do tempo para muitas mães. Maria Rezende, por exemplo, busca vivenciar cada momento com intensidade, focando em criar memórias de uma mãe presente, que brinca, conversa e se interessa genuinamente pela vida da filha. A sabedoria e a serenidade que acompanham a maturidade parecem ser os maiores trunfos dessas mulheres na condução da maternidade tardia.

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