Psicoterapia é chave para sucesso terapêutico com psicodélicos, sugere estudo
Psicoterapia é chave para sucesso terapêutico com psicodélicos, sugere estudo

Psicoterapia é chave para sucesso terapêutico com psicodélicos, sugere estudo

Renascença psicodélica sob escrutínio: Misticismo e a busca por resultados sustentáveis A atual onda de interesse em pesquisas com substâncias psicodélicas, conhecida como a renascença psicodélica, tem sido marcada por uma forte ligação com o misticismo. No entanto, um levantamento realizado por Torsten Passie, da Universidade de Hannover, e Michiel van Elk, da Universidade de […]

Resumo

Renascença psicodélica sob escrutínio: Misticismo e a busca por resultados sustentáveis

A atual onda de interesse em pesquisas com substâncias psicodélicas, conhecida como a renascença psicodélica, tem sido marcada por uma forte ligação com o misticismo. No entanto, um levantamento realizado por Torsten Passie, da Universidade de Hannover, e Michiel van Elk, da Universidade de Leiden, lança luz sobre essa conexão, desafiando alguns mitos e reafirmando a importância da psicoterapia sobre a farmacologia no tratamento com essas substâncias.

A dupla de pesquisadores analisou 11 estudos conduzidos entre 1965 e 1977, período em que a proibição de substâncias como o LSD se intensificou nos Estados Unidos, culminando na declaração de Richard Nixon sobre a guerra às drogas e na criação da DEA. Diante da reação conservadora e do avanço dos testes randomizados duplo-cegos controlados por placebo (RCTs) na pesquisa clínica, os cientistas da época buscaram aumentar o rigor metodológico de seus ensaios.

As descobertas de Passie e van Elk, que focaram em estudos sobre abuso de álcool, dependência de narcóticos e pacientes neuróticos crônicos, indicam que as dificuldades metodológicas enfrentadas pelos pesquisadores atuais, como a dificuldade em manter o cegamento devido aos efeitos subjetivos evidentes das substâncias, já eram conhecidas e abordadas na década de 1960 e 1970, inclusive com o uso de placebos ativos.

Contrariando a visão convencional de que os estudos pré-renascença eram metodologicamente falhos, os autores observaram que, embora os métodos tenham evoluído, as conclusões sobre a duração dos benefícios terapêuticos com psicodélicos permanecem semelhantes. A constatação geral nos ensaios de 1965-1977 era que os benefícios, como a remissão do abuso de álcool, não se sustentavam por mais de três a seis meses.

O paradoxo da experiência mística e a primazia da psicoterapia

Passie e van Elk atribuem essa limitação, ainda pouco transparente na divulgação das terapias psicodélicas, a dois fatores principais. O primeiro reside na seleção de pacientes com condições crônicas graves, que possuem múltiplas causas e comorbidades, tornando a cura um desafio. O segundo e mais crucial ponto é a excessiva fé depositada nas experiências de pico induzidas por altas doses de psicodélicos, como LSD, MDMA ou psilocibina.

O paradigma dominante, tanto no passado quanto na atualidade, sugere que essas vivências de ordem mística proporcionariam um profundo sentimento de conexão e uma melhor autoestima, o que, por sua vez, reduziria sintomas e facilitaria a mudança de comportamento. No entanto, Passie e van Elk diagnosticam que a ênfase unilateral na experiência mística como principal mecanismo de ação dos psicodélicos pode ser equivocada.

Essa visão estreita, mais ideológica do que teórica, moldou estudos pioneiros, como os de Roland Griffiths na Universidade Johns Hopkins, e pode estar na raiz da decepção com os psicodélicos, levando a rejeições recentes, como a do MDMA para tratar estresse pós-traumático pela agência FDA em 2024. Reguladores, inclusive, questionaram o componente psicoterapêutico dos protocolos submetidos.

Os pesquisadores argumentam que a psicoterapia é fundamental para a obtenção de resultados duradouros em tratamentos com psicodélicos, contrastando com a recente conversão de alguns adeptos à fé farmacológica. “A abordagem centrada na droga, que figura no cerne do paradigma da terapia psicodélica (tanto no passado quanto na atualidade) — ao focar nos efeitos neurobiológicos e psicológicos agudos e subagudos da substância — pode basear-se em uma premissa equivocada sobre a forma de utilizar psicodélicos terapeuticamente e sobre seus mecanismos de ação”, concluem.

As informações foram reunidas a partir de levantamento publicado por Torsten Passie e Michiel van Elk.

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