Medo de não poder ter filhos assombra homens após uso indevido de testosterona
Geraldo Lopes, empresário de 32 anos, viveu o receio de não poder ter filhos após sete anos utilizando testosterona injetável e em gel. Aos 24 anos, ele iniciou o uso do hormônio sem qualquer diagnóstico de deficiência hormonal, buscando ganhos estéticos e de massa muscular. A experiência de Geraldo, relatada em reportagem, ecoa um alerta crescente de especialistas sobre os riscos da reposição hormonal sem acompanhamento médico adequado.
O uso de testosterona, mesmo que inicialmente associado a benefícios como aumento de força e disposição, pode afetar drasticamente a produção de espermatozoides. Um estudo recente publicado na revista International Brazilian Journal of Urology reforça essa preocupação, apresentando o primeiro consenso brasileiro sobre reposição de testosterona. Elaborado por sociedades médicas de urologia, endocrinologia e medicina sexual, o documento contraindica o uso do hormônio para homens que planejam ter filhos a curto prazo.
O consenso surge em um cenário de aumento do uso de testosterona como anabolizante, muitas vezes sem prescrição médica. As associações médicas alertam que essa prática expõe os pacientes a efeitos adversos significativos, sendo a redução ou interrupção da produção de espermatozoides um dos mais graves.
O impacto na produção de espermatozoides
Leonardo Seligra, supervisor da disciplina de medicina sexual do departamento de Andrologia da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), explica que toda administração de testosterona exógena interfere na produção das células reprodutivas. Embora a produção possa ser retomada após a suspensão do uso, não há garantia de recuperação completa, e a alteração pode se tornar permanente e imprevisível.
“O paciente às vezes acha que não vai ter problemas, e lá na frente vai tentar ter filhos e não consegue porque chegou a usar testosterona. Essa alteração pode ser permanente e é imprevisível”, afirma Seligra. A testosterona externa suprime a produção hormonal nos testículos, essencial para a espermatogênese.
Para homens com hipogonadismo (baixa produção natural de testosterona) que desejam preservar a fertilidade, a recomendação é evitar a testosterona exógena e optar por medicamentos que estimulem a produção natural do hormônio. Alternativamente, o congelamento de sêmen antes do início do tratamento pode ser uma opção, caso haja produção de espermatozoides.
Riscos estéticos e psicológicos do uso indevido
Geraldo Lopes relata que não foi alertado sobre o risco de infertilidade ao iniciar o uso de testosterona. Os benefícios iniciais, como ganho de massa muscular e aumento de disposição, o levaram a continuar o tratamento, alternando períodos de acompanhamento médico com uso por conta própria. Ao longo dos sete anos, ele também experimentou efeitos colaterais como irritabilidade, acne e piora na pele, motivado por vaidade e estética.
Márcio Dytz, endocrinologista e professor de medicina, aponta que doses elevadas de testosterona podem levar à dependência. Os usuários se acostumam com as mudanças físicas e de comportamento proporcionadas pelos níveis hormonais elevados, tornando difícil a readaptação aos níveis naturais.
“Quando ele começa a ter uma testosterona normal, já acha que está ruim e volta a usar”, explica Dytz. Essa dificuldade de aceitar a queda de desempenho e bem-estar leva muitos a interromperem o uso por conta própria, perceberem a diminuição hormonal e retornarem à testosterona sem supervisão médica.
A jornada de volta à fertilidade
Após decidir tentar ter um filho, Geraldo foi aconselhado a suspender o uso de testosterona. Ele e a esposa tentaram engravidar enquanto ele ainda utilizava o hormônio, mas sem sucesso inicial. A suspensão definitiva da testosterona marcou o início de um tratamento com medicamentos para estimular a produção hormonal natural.
Cerca de três meses após o início do tratamento, exames mostraram uma melhora no quadro de Geraldo, embora ainda distante do ideal. Cinco meses depois, a esposa engravidou. A experiência deixou uma marca profunda: “Eu tive muito medo de que eu não pudesse ter filhos. A verdade é esta. Eu pensei que não poderia ter mais”, confessa Geraldo.
A recuperação da produção de espermatozoides após a interrupção do uso de hormônios pode levar meses ou até anos. A SBU alerta que o tempo de uso e a combinação com outros anabolizantes podem diminuir as chances de recuperação, com risco de azoospermia (ausência de espermatozoides) em alguns casos.
Quando a testosterona é realmente indicada?
O consenso médico visa também coibir a prescrição de testosterona para homens sem deficiência hormonal comprovada. Seligra ressalta que a investigação deve começar pela avaliação de sintomas como baixa libido, falta de disposição sexual e disfunção erétil, que podem indicar hipogonadismo.
Homens com esses sintomas e níveis de testosterona abaixo de 260 ng/dL podem ter deficiência hormonal. Níveis acima de 350 ng/dL exigem investigação de outras causas, como depressão ou obesidade. Além dos riscos à fertilidade, o uso excessivo de testosterona pode aumentar o risco de problemas cardiovasculares, como trombose, infarto e AVC.
