A conscientização sobre a sepse, uma resposta grave do organismo a infecções, tem crescido entre os brasileiros, mas o conhecimento ainda é considerado baixo, especialmente em populações mais vulneráveis. Um estudo realizado pelo Instituto Latino-Americano de Sepse (Ilas) em parceria com o Instituto Datafolha, que analisou dados de 2014, 2017 e 2026, aponta para um avanço modesto na compreensão pública da doença, que é a principal causa de morte em hospitais no país.
A pesquisa, que entrevistou mais de 6.300 brasileiros, mostrou que o percentual de pessoas que ouviam o termo sepse e sabiam defini-lo corretamente saltou de 2,6% em 2014 para 10,3% em 2026. Apesar dessa evolução, a percepção da sepse como uma emergência médica e uma causa importante de morte permanece limitada, com apenas cerca de 18% considerando-a uma emergência e menos de 6% a identificando como uma causa significativa de óbito. Em contraste, o conhecimento sobre infarto agudo do miocárdio ultrapassa 97% nos mesmos períodos.
Os dados revelam um déficit considerável na conscientização pública sobre a gravidade e as consequências da sepse. Embora 70% dos entrevistados em 2026 reconhecessem que o diagnóstico e o tratamento precoces aumentam as chances de sobrevivência, apenas 24,4% estavam cientes da possibilidade de sequelas a longo prazo, como fadiga, perda de memória, depressão ou limitações físicas e cognitivas. Uma parcela significativa (46,2%) subestimou esses comprometimentos.
Desafios na Conscientização e Identificação dos Sintomas
A sepse ocorre quando o sistema imunológico reage de forma exagerada a uma infecção (causada por bactérias, vírus ou fungos), levando à disfunção de órgãos. Essa condição pode surgir tanto de infecções comuns, como pneumonia ou infecção urinária, quanto como complicação de outras doenças ou internações hospitalares. A médica e pesquisadora Flávia Ribeiro Machado, coordenadora-geral do Ilas, destaca que a falta de reconhecimento dos sintomas e da gravidade da sepse leva à demora na busca por atendimento médico, o que compromete o prognóstico do paciente.
Os sinais clássicos de sepse incluem confusão mental, sonolência, taquicardia, respiração rápida ou falta de ar, pressão baixa, redução da produção de urina, e alterações na pele. Diferentemente de condições como o infarto, cujos sinais são amplamente conhecidos e levam à ação imediata, os sintomas da sepse são, muitas vezes, subestimados ou confundidos com outras condições, atrasando o socorro. A pesquisa aponta que o nível de escolaridade, a idade mais jovem, o sexo masculino, a residência fora das capitais e menor renda familiar estão associados a um menor conhecimento sobre a doença.
Necessidade de Políticas Públicas e Educação
Especialistas defendem a implementação de políticas públicas e campanhas de conscientização mais robustas, similares às existentes para outras doenças. A divulgação em meios de comunicação tradicionais e redes sociais, a participação de personalidades públicas e a inclusão do tema em currículos escolares são apontadas como estratégias cruciais para ampliar o alcance da informação. É fundamental que a sociedade entenda que a sepse não é apenas uma infecção, mas uma emergência médica que exige atenção imediata para evitar sequelas graves ou óbito.
A compreensão sobre a necessidade de cuidados contínuos para sobreviventes de sepse também é baixa. Muitos pacientes necessitam de readmissões hospitalares nos meses seguintes à alta devido a novas descompensações, evidenciando a importância de um acompanhamento especializado que ainda não é amplamente difundido ou compreendido pela população e, por vezes, nem mesmo por profissionais de saúde. A informação sobre a sepse, desde o reconhecimento dos primeiros sinais até a necessidade de reabilitação pós-doença, é um passo vital para mudar o destino de milhares de brasileiros.
