Ameaça Glacial e o Preço do Aquecimento Global
O colapso parcial de uma geleira no Nepal e no Tibete, que resultou em mais de 1.200 mortes e 5.000 desaparecidos, serve como um sombrio alerta sobre os perigos crescentes do aquecimento global. Este evento catastrófico, porém, não é isolado, ecoando tragédias passadas e prenunciando futuras. Em 1941, uma situação semelhante ocorreu em Huaraz, no Peru, quando o desprendimento de um bloco das geleiras Pucaranra e Palcaraju causou um tsunami e avalanche que ceifaram a vida de 1.800 pessoas. Naquela ocasião, a lagoa Palcacocha encolheu drasticamente, mas o degelo contínuo permitiu que sua extensão se multiplicasse por 34 vezes, atingindo mais de 17 milhões de metros cúbicos de água.
A realidade para os moradores de Huaraz, situada a 4.562 metros de altitude e a 1.500 metros abaixo da lagoa ameaçadora, é de constante vulnerabilidade. Cerca de um terço da população de 150 mil habitantes reside em áreas de risco aluvional, na rota potencial de deslizamentos de pedras e lama. Apesar do perigo iminente, a vida segue um curso notavelmente normal. Em 2018, durante uma reportagem sobre a crise climática, observou-se que os habitantes locais demonstravam mais preocupação com o sustento de seus porquinhos-da-índia do que com a iminente ameaça glacial.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados em reportagens sobre a crise climática.
A Luta de um Agricultor Contra Gigantes da Energia
Em meio à aparente resignação, destaca-se a figura de Saúl Luciano Lliuya, um agricultor e montanhista que decidiu empreender uma batalha legal contra o gigante alemão de energia RWE. Lliuya processou a empresa, buscando responsabilizá-la por sua parcela estimada de 0,4% nas emissões históricas de gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. A ação judicial, iniciada em 2015 na Alemanha, reivindicava 17 mil euros para financiar obras de contenção da lagoa Palcacocha. Embora o recurso de Lliuya tenha sido derrotado em última instância no Tribunal Regional Superior de Hamm no ano passado, a decisão abriu um precedente importante.
A corte reconheceu o princípio da indenização por danos ambientais comprovados, com base no código civil alemão. A decisão estabeleceu que emissores de CO2 podem ser obrigados a tomar medidas para prevenir ou ressarcir danos ambientais. A argumentação da RWE sobre a distância geográfica entre Huaraz e suas usinas de energia foi rejeitada, abrindo caminho para futuras ações semelhantes.
Um Futuro Incerto Sob Geleiras Ameaçadoras
Apesar dos avanços legais, as geleiras Pucaranra e Palcaraju continuam a pairar sobre Huaraz como uma promessa de desastre iminente. A infraestrutura de contenção é precária: o dique construído após o terremoto de 1970 possui apenas 7 metros de altura, e os sifões instalados para drenar a lagoa mal conseguem lidar com o ritmo do degelo. Um projeto para elevar a barreira antitsunami para 20 metros nunca foi concretizado.
Esta situação em Huaraz reflete um cenário global mais amplo, onde o aquecimento global intensifica fenômenos como o El Niño, provoca ondas de calor extremas, incêndios florestais e o desaparecimento de vilarejos em regiões como o Himalaia. A consciência sobre as consequências da crise climática é alta, mas a ação coletiva e efetiva para mitigar seus efeitos parece insuficiente, deixando as populações mais vulneráveis à mercê de tragédias recorrentes.
