Duas ex-dirigentes de agências reguladoras argentinas foram formalmente acusadas nesta terça-feira (1º) por seu suposto papel no caso do fentanil clínico contaminado que circulou em hospitais em 2025, sendo ligado a pelo menos 90 mortes. A tragédia sanitária é considerada pela imprensa argentina como a mais grave dos últimos 100 anos, superada apenas pela pandemia de Covid-19.
O escândalo veio à tona em maio do ano passado, quando um hospital na cidade de La Plata, a 50 km ao sul de Buenos Aires, detectou a presença de bactérias tanto em ampolas de fentanil quanto em pacientes que haviam recebido o medicamento. A investigação judicial aponta Nélida Bisio, que chefiava a Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (Anmat) durante a crise, e Gabriela Mantecón Fumadó, ex-diretora do instituto de medicamentos vinculado à Anmat, como cúmplices na adulteração do analgésico.
Segundo a decisão do juiz federal Ernesto Kreplak, ambas, com 71 e 56 anos respectivamente, teriam conhecimento das “irregularidades significativas” relacionadas à HLB Pharma e aos Laboratorios Ramallo, empresas responsáveis pela fabricação e comercialização do fentanil. No entanto, as autoridades teriam optado por não tomar as medidas cabíveis, permitindo que o medicamento adulterado chegasse ao mercado.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela agência AFP e pela imprensa argentina.
Avanço na investigação e medidas judiciais
Com o indiciamento de Bisio e Mantecón Fumadó, a investigação avança para além dos empresários e responsáveis pelas farmacêuticas. Treze executivos e diretores das empresas envolvidas já haviam sido processados anteriormente. O juiz Kreplak determinou o bloqueio de bens no valor de 500 bilhões de pesos para cada uma das ex-funcionárias, o equivalente a aproximadamente R$ 1,7 bilhão, mas permitiu que permaneçam em liberdade enquanto o processo judicial se desenrola.
Gabriela Mantecón Fumadó deixou seu cargo em agosto de 2025, em meio à crise do fentanil, enquanto Nélida Bisio permaneceu à frente da Anmat até janeiro de 2026. O fentanil é um opioide sintético extremamente potente, com efeitos analgésicos entre 50 e 100 vezes superiores aos da morfina, conforme dados da Organização Mundial da Saúde.
