A tradição milenar dos cogumelos sagrados
Agosto é o mês da colheita de cogumelos no México, mas não de qualquer tipo. O país, que abriga 25% das espécies alucinógenas do mundo, tem uma longa história de uso desses fungos, contendo psilocibina, como medicina tradicional por povos indígenas. A comunidade mazateca, que habita a Sierra Mazateca, no sul do México, tem em sua cultura a coleta e o uso ritualístico desses cogumelos há milênios.
Alejandrina, membro da comunidade mazateca, relembra sua infância, quando a colheita era acompanhada de cantos e orações. “Quando encontrávamos o primeiro, cantávamos e recitávamos uma oração para ele. Depois, fazíamos a comunhão, ou seja, nós o comíamos. Em seguida, dizíamos a ele: ‘Mostre-me onde estão seus irmãos’. Eles então nos guiavam até sua família”, relata.
Para os mazatecas, o cogumelo medicinal, como o Derrumbe, uma espécie nativa da região, é utilizado para “prevenir doenças, para estar em sintonia com nosso ambiente e nossos corpos e para nos lembrar de que somos simplesmente natureza”, explica Alejandrina. Para sentir seus efeitos, são necessárias cerca de dez unidades por pessoa.
A fama mundial desses cogumelos chegou há 70 anos, com uma reportagem da revista americana Life sobre Maria Sabina, uma renomada xamã mazateca. Celebridades como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison buscaram a Sierra Mazateca para experimentar a substância, o que contribuiu para sua disseminação. No entanto, em 1970, o governo dos Estados Unidos proibiu seu consumo, impactando sua regulamentação globalmente.
O potencial terapêutico da psilocibina em debate
A psiquiatra Rebeca Espinosa destaca que a psilocibina é classificada como substância da Lista I nos Estados Unidos, a categoria mais restritiva, considerada perigosa e sem potencial terapêutico. Essa classificação impede sua pesquisa científica no México, embora as comunidades indígenas tenham permissão para seu consumo e compartilhamento restrito entre seus membros.
Contudo, antes mesmo das proibições, estudos científicos já apontavam benefícios da psilocibina no tratamento de transtornos de saúde mental. “As pesquisas sobre a psilocibina concentraram-se no transtorno depressivo maior, na depressão e na ansiedade associada ao câncer ou a outras doenças terminais. Resultados muito positivos foram obtidos em todas essas áreas”, afirma Espinosa.
Um estudo de 2021, realizado por pesquisadores da Imperial College London, comparou a eficácia da psilocibina com a do antidepressivo escitalopram. Os resultados mostraram que 70% dos participantes tratados com psilocibina apresentaram resposta positiva, contra 48% dos que usaram escitalopram.
Avanços e desafios na pesquisa científica
Nos últimos anos, alguns estudos com psilocibina foram autorizados nos Estados Unidos, e Rebeca Espinosa espera uma abertura semelhante no México, onde diversos projetos de lei com esse objetivo aguardam votação.
O Brasil se destaca internacionalmente nas pesquisas com psicodélicos, com instituições como USP, UFRN, UFCG e Unesp desenvolvendo estudos com psilocibina. Apesar de a substância ser classificada como psicotrópica proibida desde os anos 1990, a legislação brasileira permite seu uso para pesquisa científica e médica, mediante aprovação caso a caso, um processo que, embora burocrático, tem viabilizado importantes avanços.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela agência de notícias Reuters e reportagens sobre o tema.
