Um ano após o início de operações militares americanas para bombardear embarcações suspeitas de transportar drogas, a estratégia do governo Trump demonstra resultados questionáveis. Pelo menos 227 pessoas foram mortas, mas não há sinais claros de redução na oferta de substâncias ilícitas no mercado dos Estados Unidos. Preços da cocaína permanecem estáveis e apreensões nas fronteiras não diminuíram, indicando que traficantes estão adaptando suas rotas e métodos de transporte para burlar as forças americanas.
Apesar das declarações otimistas do governo Trump, que chegou a afirmar uma queda de 98,2% no tráfego marítimo, relatórios de organizações como a Wola (Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos) não encontram evidências de escassez de cocaína nos EUA. Pesquisas indicam que o preço da droga por grama se mantém em patamares semelhantes aos anteriores aos ataques. As apreensões pela Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) também registraram um leve aumento, não condizente com uma redução significativa no volume que entra no país.
Autoridades militares americanas, como o general Francis Donovan, chefe do Comando Sul, admitem que os traficantes estão se adaptando. O fluxo de drogas tem se deslocado para rotas alternativas, incluindo o transporte aéreo e o uso de contêineres, e para regiões menos patrulhadas. Donovan chegou a declarar que os ataques contra embarcações “não são a resposta” nem “a ferramenta mais eficaz” na luta contra o narcoturáfico, embora Washington não dê sinais de abandonar a estratégia.
Investigação e retomada da ofensiva
A campanha militar sofreu uma pausa em agosto, após um órgão de fiscalização do Pentágono iniciar uma investigação sobre o cumprimento das diretrizes dos EUA durante os ataques. Relatos anteriores, como os publicados pelo The Washington Post e The Intercept, apontaram para ordens de “matar todos” a bordo e possíveis mortes de sobreviventes em bombardeios secundários, o que levanta sérias questões sobre a legalidade e a ética das operações sob o direito internacional.
Apesar das investigações e das declarações do general Donovan sobre a ineficácia da estratégia, o Comando Sul retomou os bombardeios em águas da América do Sul no final de agosto, após dois meses de trégua. Essa retomada ocorre em um contexto de ampliação da cooperação regional contra o narcoturáfico, com Colômbia e Equador autorizando operações conjuntas com os EUA, integrando alianças como o Escudo das Américas.
Dúvidas sobre os alvos e o direito internacional
Uma das principais preocupações levantadas por organizações de direitos humanos e advogados é a identidade dos alvos. Relatórios da Wola indicam que algumas das pessoas mortas em ataques não tinham envolvimento conhecido com o narcoturáfico, enquanto outras atuavam em níveis inferiores da cadeia, muitas vezes como tripulantes recrutados em comunidades pobres. Há também casos de pessoas com envolvimento mais claro com o crime organizado.
O Centro para Direitos Constitucionais (CCR) e a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) representam famílias em ações judiciais contra os EUA, questionando a base jurídica das operações. Advogados argumentam que a designação de um cartel como organização terrorista estrangeira não autoriza automaticamente o uso da força militar contra seus supostos integrantes, especialmente em áreas onde não há um conflito armado declarado. Para eles, as mortes devem ser analisadas sob as normas internacionais de direitos humanos, configurando execuções extrajudiciais ou, em termos mais diretos, assassinatos, e não crimes de guerra.
Antes dessa campanha, suspeitos em embarcações eram interceptados pela Guarda Costeira e submetidos à justiça, um método que, segundo especialistas, também permitia a coleta de informações para desmantelar organizações criminosas em níveis superiores. O Congresso americano é visto como um possível meio de restringir a operação, através do corte de financiamento e da exigência de pareceres jurídicos e gravações dos ataques. A política atual é comparada a práticas anteriores, como os “signature strikes”, que permitiam o ataque a indivíduos não identificados com base em padrões de comportamento associados ao terrorismo, abrindo um precedente para as ações em curso.
