Um indicador único para a saúde
Cientistas e especialistas em envelhecimento buscam uma métrica capaz de capturar a totalidade da saúde de um indivíduo – desde a força física e a acuidade sensorial até a agilidade mental e o bem-estar psicológico. Essa busca culminou no conceito de capacidade intrínseca, uma medida holística que visa avaliar o que o corpo e a mente de uma pessoa são capazes de fazer. O termo, embora não seja o mais chamativo, é cientificamente embasado: “intrínseca” refere-se aos atributos inerentes ao indivíduo, “da pele para dentro”, e “capacidade” descreve o seu funcionamento.
Atualmente, a capacidade intrínseca não é um exame de rotina em consultas médicas, mas a expectativa é que, no futuro, profissionais de saúde a utilizem para monitorar o bem-estar de pacientes idosos e, potencialmente, de indivíduos mais jovens. Sua relevância imediata reside no campo da pesquisa da longevidade, onde a capacidade intrínseca pode se tornar a chave para comprovar a eficácia de medicamentos e mudanças de estilo de vida destinados a desacelerar o processo de envelhecimento.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
O Que Avalia a Capacidade Intrínseca?
Formalmente definida em 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como parte de sua iniciativa de envelhecimento saudável, a capacidade intrínseca propõe uma mudança de foco: sair da mera observação de doenças para a priorização da maximização e preservação das capacidades funcionais dos idosos. A pontuação é calculada com base no desempenho em cinco subdomínios: cognição, locomoção (força e mobilidade), capacidade sensorial (visão e audição), bem-estar psicológico e vitalidade (energia e resistência a estresses físicos).
Muitos dos testes empregados para avaliar esses subdomínios já são amplamente utilizados na prática clínica geriátrica, como a força de preensão manual e a velocidade da marcha. Pesquisas indicam que a capacidade intrínseca está diretamente associada ao risco de incapacidade e mortalidade em idosos. Contudo, o seu verdadeiro valor clínico reside no acompanhamento longitudinal dessa capacidade. Monitorar a evolução da pontuação ao longo do tempo permitiria aos médicos identificar precocemente sinais de declínio e intervir para retardar ou interromper essa trajetória, mesmo em indivíduos que ainda se consideram vigorosos e sem doenças aparentes.
Aplicações Atuais e Futuras da Métrica
A capacidade intrínseca está sendo ativamente estudada em ensaios clínicos, como um experimento em andamento na França. Neste estudo, idosos preenchem questionários para avaliar sua capacidade intrínseca e recebem recomendações personalizadas. Se a pontuação de um participante começar a diminuir, ele é rapidamente encaminhado para avaliações médicas adicionais e tratamento. Embora os resultados ainda sejam preliminares e não haja comprovação definitiva de que intervenções precoces baseadas nessa métrica aumentem a longevidade, a expectativa é positiva.
Um novo programa de pesquisa financiado pela ARPA-H (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Saúde), dos Estados Unidos, também foca na capacidade intrínseca. O objetivo é pavimentar o caminho para a aprovação de medicamentos capazes de prolongar a vida saudável pela FDA (Food and Drug Administration). A dificuldade em testar medicamentos antienvelhecimento reside na necessidade de ensaios clínicos de décadas, de custo proibitivo. A capacidade intrínseca surge como um indicador substituto promissor. Adicionalmente, a OMS incluiu o “declínio da capacidade intrínseca associado ao envelhecimento” na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças, reconhecendo a importância de tratar o envelhecimento como um processo que pode ser monitorado e influenciado.
O projeto da ARPA-H busca validar se a capacidade intrínseca reflete o funcionamento e a longevidade de um indivíduo e se pode ser melhorada por meio de intervenções. O sucesso deste projeto pode estabelecer a capacidade intrínseca como métrica padrão para a aprovação de medicamentos voltados ao envelhecimento, potencialmente levando ao primeiro medicamento aprovado para a longevidade.
