Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho registra 15 infecções e 8 óbitos em surto de bactérias multirresistentes.
Um surto de bactérias multirresistentes levou à infecção de 15 pacientes e à morte de oito deles no Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, na região metropolitana de Natal, Rio Grande do Norte. Os casos ocorreram entre maio e julho deste ano, conforme aponta um relatório do Núcleo de Segurança do Paciente da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) concluído neste mês. Embora a maioria das infecções tenha se originado dentro da unidade, os quatro primeiros pacientes infectados haviam sido transferidos de outros hospitais.
As bactérias identificadas no surto são a Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii e Klebsiella pneumoniae. Um dos pacientes, infectado por duas dessas bactérias enquanto estava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), faleceu em 22 de julho, e o último óbito registrado ocorreu em 28 de julho. O documento da Sesap descreve um “cenário grave de infecções e colonizações” que culminou nos oito falecimentos, mas a secretaria ressalta que as mortes ainda estão sob investigação e a relação direta com as bactérias não pode ser conclusivamente afirmada neste momento.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) do Rio Grande do Norte.
Falhas estruturais e operacionais contribuíram para o surto
O relatório da Sesap atribui a contaminação a uma série de fragilidades observadas no hospital. As equipes de Controle de Infecção Hospitalar e de Segurança do Paciente identificaram “severa fragilidade operacional e processual” tanto na UTI quanto na Clínica Médica, os setores mais afetados. Entre os problemas apontados estão o manejo inadequado de dispositivos invasivos (acessos e sondas), um déficit crônico de profissionais que sobrecarrega a equipe existente, resistência de parte dos funcionários em aderir completamente aos protocolos de Equipamento de Proteção Individual (EPI), infraestrutura e equipamentos precários, incluindo mofo nas paredes, ineficácia nos processos de limpeza, falta de leitos de isolamento e a constante circulação de cuidadores entre diferentes leitos.
Medidas de controle e situação atual
Segundo a Secretaria de Saúde Pública, um plano de ação foi implementado em maio, logo após a identificação da primeira contaminação. A pasta afirma que a situação é considerada controlada desde 12 de agosto, quando o hospital completou 15 dias sem novos casos de infecção, período considerado padrão pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O infectologista Klinger Faíco, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou que bactérias multirresistentes são imunes a diversos antibióticos, o que pode tornar o tratamento mais complexo, caro e menos eficaz, embora não signifique a ausência total de opções terapêuticas.
Contexto de crise na saúde pública do RN
O surto ocorre em um momento delicado para a saúde pública do Rio Grande do Norte. A secretaria estadual acumula uma dívida de R$ 545,31 milhões com fornecedores e prestadores de serviço. No primeiro semestre deste ano, o estado aplicou apenas 7,04% de suas receitas em saúde, o menor índice dos últimos dez anos. A Sesap alega que priorizou o pagamento de dívidas e que busca cumprir o mínimo de 12% de despesas em saúde estabelecido pela Constituição até o final do ano. Em julho, o secretário Alexandre Motta afirmou que o pagamento de dívidas não impactou os serviços essenciais, garantindo que hospitais continuam abastecidos e o fluxo de atendimento ininterrupto.
