A preocupação com o corpo masculino ganha novas dimensões
Enquanto a sociedade aprendeu a identificar os sinais de transtornos alimentares e a busca por magreza em adolescentes do sexo feminino, um fenômeno crescente entre meninos e jovens homens tem passado despercebido: a obsessão por ganhar massa muscular. Segundo o médico Roberto Olivardia, que estuda problemas de imagem corporal há mais de três décadas, a dificuldade em detectar essa tendência se deve ao fato de que o exercício físico e o desenvolvimento muscular são frequentemente associados à disciplina e à saúde. No entanto, essa percepção pode mascarar um problema sério que tem se agravado, especialmente com o advento das redes sociais.
Olivardia explica que, historicamente, a pressão por um corpo ideal para as mulheres sempre esteve ligada à magreza. Para os homens, a idealização de um corpo musculoso ganhou força a partir do final dos anos 1970 e início dos 1980, com o auge de estrelas de cinema como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. Essa mensagem de que mais músculos equivalem a maior masculinidade, embora presente, ganhou uma nova e poderosa dimensão com as plataformas digitais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News Brasil.
Dismorfia muscular: uma obsessão socialmente aceita
O termo “dismorfia muscular” foi cunhado em meados dos anos 1990 por Olivardia e colegas ao investigarem transtornos alimentares em homens. Muitos pacientes relatavam ter superado anorexia ou bulimia, mas se viam imersos em uma busca compulsiva por mais músculos. A ironia, segundo o especialista, é que essa nova obsessão era, em muitos casos, socialmente aceita e até elogiada com comentários sobre disciplina e força de vontade, mascarando a patologia subjacente.
Homens com dismorfia muscular, mesmo exibindo corpos corpulentos e musculosos, continuam a se perceber como pequenos ou inadequados. Vivem com o receio de perder massa muscular repentinamente, o que gera uma preocupação constante com a aparência que afeta significativamente suas vidas. A linha entre o exercício saudável e a compulsão é tênue, e os sinais de alerta podem ser sutis.
O papel das redes sociais e a normalização de comportamentos extremos
Olivardia aponta as redes sociais como um dos principais catalisadores do agravamento do problema. A proliferação de influenciadores, muitas vezes sem respaldo científico, cria uma cultura onde a opinião de leigos pode ter o mesmo peso ou até mais do que a de especialistas. Essa exposição constante a conteúdos que promovem ideais extremos de corpo, como os vistos em comunidades de “looksmaxxing”, leva à normalização de comportamentos que antes seriam considerados psicóticos.
A influência é tão grande que jovens a partir dos dez anos já buscam ajuda por problemas de imagem corporal. Esses influenciadores prometem, através de seus físicos e conselhos, acesso a poder, respeito e sucesso social, o que atrai especialmente adolescentes vulneráveis em busca de aceitação e conexão. A idade em que os jovens começam a apresentar esses comportamentos tem diminuído drasticamente, refletindo o alcance direto e constante dessas mensagens.
Identificando o problema: o que pais e treinadores devem observar
Para ajudar a diferenciar a prática saudável de exercício de um comportamento obsessivo, Olivardia sugere duas perguntas cruciais. A primeira é sobre a percepção da própria imagem corporal: um jovem que se considera “muito gordo” ou “magro demais” quando a realidade física não condiz com essa autoavaliação pode estar apresentando um sinal de alerta. A segunda questão é sobre o impacto desse comportamento em outras áreas da vida.
Passar cinco ou seis horas diárias na academia, ao ponto de sofrer exaustão e negligenciar outras responsabilidades, é um indicativo claro de que o exercício deixou de ser saudável. Além disso, a atenção deve ser redobrada para o uso de esteroides e outras substâncias, que podem levar a dependências e problemas de saúde graves, como a dependência de opioides devido a dores decorrentes do excesso de treinamento. A chave reside em encontrar um equilíbrio, onde a atividade física contribui para o bem-estar sem se tornar uma fonte de sofrimento ou isolamento.
