Bomba, submarino nuclear e urânio: o que há de real e retórico no discurso de soberania do Brasil
Bomba, submarino nuclear e urânio: o que há de real e retórico no discurso de soberania do Brasil

Bomba, submarino nuclear e urânio: o que há de real e retórico no discurso de soberania do Brasil

Avanços e promessas na defesa brasileira levantam questões sobre a real capacidade do país em desenvolver tecnologias nucleares e seu impacto geopolítico. O debate sobre a soberania nacional e o investimento em defesa ganhou contornos mais acentuados no Brasil com a retomada das discussões sobre a capacidade nuclear do país, incluindo a possibilidade de construção […]

Resumo

Avanços e promessas na defesa brasileira levantam questões sobre a real capacidade do país em desenvolver tecnologias nucleares e seu impacto geopolítico.

O debate sobre a soberania nacional e o investimento em defesa ganhou contornos mais acentuados no Brasil com a retomada das discussões sobre a capacidade nuclear do país, incluindo a possibilidade de construção de uma bomba atômica e o desenvolvimento de um submarino nuclear. Em meio a discursos que prometem verbas para as Forças Armadas e ressaltam a importância estratégica da defesa, como as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, surge a questão: qual a real viabilidade desses projetos e o que é, de fato, retórica eleitoral?

A Gazeta do Povo consultou analistas de defesa e política para desvendar os bastidores e a complexidade de iniciativas como o enriquecimento de urânio, a construção de um submarino nuclear e a ambição por uma arma atômica. As análises apontam para um cenário global de crescente tensão nuclear, que remonta a 2021, e para um histórico brasileiro de projetos nucleares que, embora interrompidos, deixaram um legado de conhecimento e debate.

A discussão sobre o domínio nuclear no Brasil não é nova. Entre as décadas de 1970 e 1990, o país manteve um projeto secreto de desenvolvimento da bomba atômica, motivado por preocupações com ameaças regionais, especialmente da Argentina. Com a promulgação da Constituição de 1988 e o fim da Guerra Fria, o programa foi encerrado, e a corrida nuclear global perdeu força. No entanto, a recente expansão de arsenais nucleares por potências como China e Rússia, aliada ao fim de acordos de controle de armas, reconfigurou o cenário, sendo classificado por especialistas como uma “Nova Era Nuclear”.

A Tese da “Maioridade Geopolítica” e os Desafios da Bomba Atômica

A ideia de que a posse de uma bomba atômica conferiria ao Brasil uma “maioridade geopolítica” e um poder de dissuasão contra ameaças externas tem sido defendida por alguns setores, como o candidato Renan Santos. A teoria sugere que a capacidade de destruição máxima é um requisito para relevância estratégica internacional. Contudo, especialistas alertam para os obstáculos regulatórios, como a necessidade de emenda constitucional, e para a limitada eficácia de um pequeno arsenal nuclear frente a potências consolidadas. A posse de uma ou duas bombas, segundo o especialista em segurança pública Roberto Motta, seria insignificante e poderia até mesmo isolar o país internacionalmente.

A dissuasão nuclear, conforme argumenta o militar da reserva Nelson Ricardo Fernandes Silva, só é eficaz se acompanhada de meios de lançamento estratégicos – mísseis, bombardeiros avançados ou submarinos – que o Brasil não possui e não tem acesso fácil no mercado internacional. Além disso, a própria natureza das guerras modernas, com armamentos convencionais avançados, levanta dúvidas se o poder nuclear seria suficiente para proteger um país contra conflitos prolongados, como visto na guerra entre Rússia e Ucrânia, ou em ataques como o do Irã a Israel.

O Submarino Nuclear: Um Projeto de Longa Data e Complexidade Tecnológica

O projeto de construção de um submarino nuclear para a Marinha do Brasil, que visa aumentar a capacidade de dissuasão marítima por sua longa permanência submersa e dificuldade de detecção, é um empreendimento que se arrasta há décadas. Instituído em 1979, o programa enfrentou falta de investimentos e dificuldades no desenvolvimento ou aquisição da tecnologia do motor nuclear. Parcerias com a França, como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), focaram inicialmente em submarinos convencionais. A construção do submarino nuclear “Álvaro Alberto” prevê a colaboração francesa no casco, mas não no reator nuclear, cuja tecnologia o Brasil ainda precisa dominar.

O alto custo anual do programa, estimado entre R$ 2 e R$ 3 bilhões, e a incerteza sobre a aquisição da tecnologia do reator nuclear levantam questionamentos sobre a prioridade do investimento. Analistas sugerem que os recursos poderiam ser melhor aplicados no reaparelhamento geral das Forças Armadas. A promessa de direcionar mais verbas para o submarino, feita pelo presidente Lula, contrasta com a falta de resultados concretos na obtenção do motor nuclear, apesar de tentativas de negociação com a Rússia durante o governo Bolsonaro.

Enriquecimento de Urânio e Angra 3: Energia vs. Armamento

O Brasil detém a tecnologia de enriquecimento de urânio desde 1987, com produção de pastilhas de dióxido de urânio para as usinas nucleares de Angra dos Reis. No entanto, o domínio da energia nuclear civil não se traduz automaticamente na capacidade de produzir armas nucleares. O enriquecimento para fins bélicos exige níveis muito superiores a 90% de pureza e o reprocessamento de plutônio, algo que o país não demonstrou ter desenvolvido. A usina de Angra 3, por sua vez, figura como um dos projetos de infraestrutura mais demorados do Brasil, paralisada desde 2015 por denúncias de corrupção, com custos de conclusão que superam os R$ 23 bilhões.

A retomada de Angra 3 é um dos pontos do plano de governo de Renan Santos, enquanto o plano do presidente Lula não menciona a usina diretamente. Apesar de a energia nuclear representar menos de 5% da matriz energética brasileira, a sua relevância para a geração de eletricidade independente de fatores climáticos é inegável. Contudo, a conexão entre a tecnologia nuclear civil e a capacidade de armamento nuclear permanece um ponto de debate e de distinção crucial.

As informações foram reunidas a partir de análises sobre o cenário de defesa e projetos nucleares no Brasil e no mundo.

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