Novo estudo brasileiro indica que o consumo contínuo do aditivo alimentar goma xantana pode desencadear inflamação no intestino. A pesquisa, publicada na revista Plos One, utilizou ratos como modelo experimental para comprovar a relação causal entre o ingrediente, amplamente usado em alimentos industrializados, e o desenvolvimento de processos inflamatórios intestinais.
A goma xantana é um espessante e estabilizante comum em produtos como sorvetes, iogurtes, molhos, bolos e massas sem glúten. Sua utilização também é crucial para pacientes com dificuldade de deglutição, que a adicionam a líquidos e alimentos para facilitar a ingestão. No entanto, o estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) lança luz sobre os potenciais riscos do consumo prolongado.
As descobertas validam preocupações que já existiam na comunidade científica e clínica. Em 2011, o FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos) emitiu um alerta sobre o uso de espessantes à base de goma xantana em fórmulas para bebês prematuros, suspeitando de uma ligação com o desenvolvimento de enterocolite necrosante, uma inflamação intestinal grave que pode ser fatal. Na época, pelo menos sete mortes de prematuros foram associadas ao uso do aditivo.
Atualmente, a regulamentação nos EUA é mais cautelosa que a brasileira, com limites de concentração para maiores de 12 anos e restrições severas para bebês, sendo totalmente proibida para prematuros. Apesar dessas medidas, o conhecimento científico sobre os efeitos da goma xantana no intestino humano era limitado até o presente estudo. “O estudo realizado em ratos comprovou a causalidade, ou seja, que esse aditivo alimentar de fato causa a inflamação”, afirma Claudia Oller, coordenadora da pesquisa e professora da Unifesp.
Modelo experimental revela impactos inflamatórios
Durante dez semanas, ratos adultos foram alimentados com diferentes doses de goma xantana. Um grupo controle não consumiu o aditivo, enquanto outros receberam doses baixas (simulando consumo em dietas sem glúten), médias (imitando uso ocasional em disfagia leve) e altas (simulando uso frequente em disfagia moderada a severa).
Os resultados mostraram que, embora o metabolismo geral dos animais não tenha sido afetado, os efeitos locais no intestino foram significativos. Em todas as doses testadas, a goma xantana promoveu um estado inflamatório de grau moderado. Isso foi evidenciado pelo aumento de linfócitos (células de defesa) na parede intestinal, com o processo sendo mais acentuado nos grupos que receberam doses médias e altas.
A análise do tecido intestinal e a detecção de moléculas pró-inflamatórias, como o Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α), confirmaram a inflamação. O TNF-α está associado à morte de células epiteliais do intestino e ao desenvolvimento de doenças inflamatórias, conforme explica Alessandra Rischiteli Bragança Silva, primeira autora do estudo.
Além disso, o estudo detectou um aumento expressivo da proteína Claudina-2 na mucosa intestinal. Essa elevação está ligada ao aumento da permeabilidade intestinal, uma condição associada a doenças inflamatórias como Crohn e colite ulcerativa. O intestino, que normalmente atua como uma barreira seletiva, perde sua integridade quando a permeabilidade aumenta, permitindo que substâncias nocivas e bactérias
