Davi Alcolumbre segura PEC da Jornada 6×1 e pressiona governo Lula em jogo de poder no Senado
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu manter a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 8/2025, que visa o fim da jornada de trabalho 6×1, parada na Casa. A decisão, comunicada durante um período de intensa atividade legislativa em agosto, configura uma estratégia de retaliação e negociação com o governo federal, transformando a PEC em uma poderosa moeda de troca. A aprovação da matéria era vista nos bastidores governistas como uma vitrine eleitoral crucial para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscar uma melhora em sua imagem junto ao eleitorado.
A tentativa de selar a paz entre Alcolumbre e Lula ocorreu em um jantar fora da agenda oficial na residência do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, na última terça-feira (4). O encontro buscou amenizar as tensões geradas pela rejeição do nome de Jorge Messias ao STF em abril. Contudo, interlocutores confirmaram à Gazeta do Povo, na sexta-feira (7), que uma nova reunião entre os dois chefes de poder está em articulação para a próxima semana, sinalizando que as negociações para a liberação da PEC seguem em curso.
Aliados do governo depositam esperanças na capacidade de Lula convencer Alcolumbre a destravar a tramitação da PEC 6×1, considerada pelo Planalto como a principal bandeira da campanha petista nas eleições. Diante do bloqueio imposto pela presidência do Senado, o governo tentou uma manobra alternativa ao propor o Projeto de Lei 1.838/2026 na Câmara dos Deputados como um atalho legislativo para contornar o rito constitucional da PEC. O projeto busca alterar a carga horária de trabalho nos moldes da PEC, mas enfrenta obstáculos regimentais e questionamentos de inconstitucionalidade que inviabilizam sua deliberação na apertada janela de agosto, transformando a iniciativa em um impasse político às vésperas do pleito.
Alcolumbre usa PEC como ferramenta de barganha política
Analistas políticos avaliam que o confronto direto entre a presidência do Senado e o Executivo expõe uma fratura que nem o recesso parlamentar de julho conseguiu arrefecer. O Palácio do Planalto tornou-se refém da própria pressa ao tentar impor uma pauta de grande impacto econômico sem o devido apoio regimental no Senado. O cientista político Valdir Pucci descreve o clima de tensão permanente que paralisa a agenda prioritária do Executivo.
“A relação entre o presidente do Senado e o governo continua abalada, e isso vem desde a indicação frustrada de Jorge Messias ao STF. Os dois estão medindo forças. De um lado, o presidente Alcolumbre travando a pauta e de outro o governo pressionando com um projeto de lei que o próprio governo sabe que não vai ser aprovado”, explica Pucci.
Davi Alcolumbre converteu a tramitação da PEC da Escala 6×1 em um escudo de proteção política e instrumento de extorsão institucional. Impulsionado por conveniências eleitorais e pela necessidade de blindar setores produtivos como o comércio e os serviços, o senador amapaense estrangula a proposta para subjugar o governo e ditar os rumos das deliberações em Brasília. O controle da pauta se tornou a principal ferramenta de Alcolumbre para obter a liberação de emendas parlamentares represadas e a nomeação de aliados em cargos estratégicos.
Além da barganha orçamentária, a retenção da PEC serve de alavanca em negociações sobre futuras vagas em tribunais superiores, incluindo o STF, e em diretorias de agências reguladoras. O parlamentar busca consolidar sua hegemonia no Congresso e pavimentar seu domínio na eleição da Mesa Diretora do Senado. Embora o governo tente pintar o travamento da proposta como um boicote aos direitos dos trabalhadores, o movimento do comando do Senado está amparado pelas normas do Poder Legislativo.
Calendário apertado e oposição reforçam impasse
Pucci ressalta que a movimentação no Congresso atende estritamente aos regimentos e expõe a retórica de propaganda governista. “Ele trabalha de acordo com as prerrogativas do presidente do Senado. Independente do resultado final, o discurso governista vai ser no sentido de se colocar a favor da PEC, que tem grande clamor popular, e colocando na oposição o papel contrário”, disse.
A reunião entre os chefes de Poder representa a última cartada do governo para tentar impor a votação da PEC 6×1 antes da paralisação total das atividades parlamentares em função das eleições de 2026. O calendário legislativo é apertado, com janelas de esforço concentrado de 10 a 14 de agosto e de 31 de agosto a 3 de setembro. O tempo é insuficiente para analisar uma proposta de emenda à Constituição que altera a estrutura produtiva nacional. Para piorar o cenário governista, o Plenário terá que apreciar matérias orçamentárias de deliberação obrigatória, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027.
O isolamento do governo no Senado é evidente até mesmo entre parlamentares de legendas aliadas. O presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), confirmou que não recebeu qualquer sinalização de Alcolumbre sobre prazos para o envio da PEC ao colegiado. A oposição, por sua vez, reforça que a tentativa de impor a redução da jornada sem o devido estudo de impacto fiscal e produtivo serve apenas ao oportunismo político do PT, como aponta o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).
“A PEC pelo fim da escala 6×1 é tanto populista, quanto oportunista. Recentemente, foi integrada como bandeira de pré-campanha do PT em uma tentativa de criar uma marca do atual governo dentro de uma estratégia com fins eleitoreiros. Essa questão trabalhista não deve estar em texto constitucional”, comentou Mourão. Apesar disso, a base governista aposta que Lula pode conseguir convencer Alcolumbre a tempo de colocar a proposta em votação no plenário durante o curto período de esforço concentrado.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo jornal Gazeta do Povo.
