Estudo aponta que mulheres com lesão cerebral têm menos chances de receber tratamento especializado
Estudo aponta que mulheres com lesão cerebral têm menos chances de receber tratamento especializado

Estudo aponta que mulheres com lesão cerebral têm menos chances de receber tratamento especializado

Mulheres com traumatismo craniano enfrentam barreiras no acesso a cuidados especializados Um estudo publicado no Canadian Medical Association Journal aponta que mulheres com traumatismo cranioencefálico (TCE) têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros médicos especializados em comparação com homens. Essa disparidade persiste mesmo quando a gravidade da lesão, idade e comorbidades são equivalentes […]

Resumo

Mulheres com traumatismo craniano enfrentam barreiras no acesso a cuidados especializados

Um estudo publicado no Canadian Medical Association Journal aponta que mulheres com traumatismo cranioencefálico (TCE) têm 26% menos chances de serem encaminhadas a centros médicos especializados em comparação com homens. Essa disparidade persiste mesmo quando a gravidade da lesão, idade e comorbidades são equivalentes entre os pacientes.

A pesquisa analisou dados de mais de 50 mil adultos hospitalizados em Ontário, no Canadá, entre 2009 e 2020. O TCE, frequentemente causado por quedas, é uma das principais causas de morte e incapacidade relacionadas a traumas globalmente. Este achado se soma a outras evidências que já demonstravam desvantagens para mulheres no acesso a tratamentos para condições como infarto e transplante renal.

Os pesquisadores da Universidade de Toronto, liderados pela médica intensivista Natalia Angeloni, basearam-se em um levantamento de 2012 que já indicava menor probabilidade de mulheres gravemente feridas receberem atendimento em centros de trauma. A nova pesquisa confirmou que essa tendência também se aplica a lesões cerebrais.

Disparidades persistentes e possíveis explicações

“Nosso estudo mostra que essas disparidades persistiram ao longo do tempo e parecem ser relevantes em diferentes condições clínicas”, afirmam os autores. Entre as hipóteses para o fenômeno, o estudo aponta a maior frequência de traumatismos graves em homens, a possível desvalorização do quadro clínico feminino e o desconhecimento sobre as particularidades do cérebro das mulheres.

O neurocirurgião Wellingson Paiva, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e coordenador da Unidade de Neurocirurgia de Emergência do Hospital das Clínicas da USP, destaca que o conhecimento gerado no Canadá pode ser aplicado globalmente. Ele compara o sistema de saúde canadense ao brasileiro, com atendimento primário e de referência, mas observa que o sistema do Canadá funciona de maneira mais eficaz.

Paiva sugere que falhas na triagem de casos podem ocorrer devido a uma compreensão ainda incompleta de como um impacto afeta o cérebro feminino. “Toda a literatura é baseada no cérebro do homem”, explica o especialista, ressaltando que, tradicionalmente, homens estão mais expostos a atividades de risco que resultam em traumatismos mais graves.

Viés de gênero e a necessidade de revisão de protocolos

O ciclo, segundo Paiva, se perpetua: menor envolvimento feminino em atividades de risco leva a uma menor produção de conhecimento médico sobre TCE em mulheres. Consequentemente, quando elas sofrem uma lesão cerebral, os profissionais de saúde podem não reconhecer plenamente a manifestação dos sintomas, ou estarem enviesados a considerar que tais lesões são primariamente masculinas, resultando em cuidados inadequados.

Os pesquisadores da Universidade de Toronto acreditam que o viés de gênero desempenha um papel significativo. “Esse conceito é corroborado por estudos de simulação que mostram que volumes idênticos de sangramento são frequentemente subestimados em pacientes do sexo feminino e superestimados nos do sexo masculino”, apontam.

Conclui-se que há uma necessidade urgente de revisão dos protocolos de triagem em todo o mundo para que os traumatismos específicos em mulheres sejam adequadamente identificados e tratados. Enquanto isso, o estudo sugere que as próprias pacientes podem precisar insistir para garantir que recebam o cuidado necessário.

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