Parto difícil não é exclusividade humana, revela estudo científico
Parto difícil não é exclusividade humana, revela estudo científico

Parto difícil não é exclusividade humana, revela estudo científico

O parto humano, frequentemente descrito como um desafio anatômico único, pode não ser tão singular quanto se pensava. Um novo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution sugere que limitações semelhantes no processo de nascimento são encontradas em outros primatas, contrariando a noção de que o “dilema obstétrico” é uma exclusividade da nossa espécie. […]

Resumo

O parto humano, frequentemente descrito como um desafio anatômico único, pode não ser tão singular quanto se pensava. Um novo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution sugere que limitações semelhantes no processo de nascimento são encontradas em outros primatas, contrariando a noção de que o “dilema obstétrico” é uma exclusividade da nossa espécie.

Por décadas, a ciência tem se debruçado sobre o parto humano, caracterizado pela passagem da cabeça do bebê pela pelve materna com uma folga mínima. Essa dificuldade foi historicamente atribuída ao “dilema obstétrico”, uma hipótese de 1960 que postula que a evolução da bipedia humana exigiu uma pelve mais estável para a locomoção, ao mesmo tempo em que precisava acomodar cérebros maiores. Essa combinação teria levado a um estreitamento da passagem pélvica, criando um cenário propício a emergências obstétricas, como a distocia de ombro.

Para investigar se essa limitação era realmente uma característica humana, uma equipe liderada por Nicole Torres-Tamayo, da University College London, utilizou modelos 3D para analisar a abertura pélvica de 130 fêmeas adultas de 29 espécies de primatas, incluindo humanos. A pesquisa comparou essas medidas com o tamanho da cabeça dos recém-nascidos de cada espécie, buscando quantificar a margem de manobra durante o nascimento.

As descobertas indicam que, embora os humanos ainda apresentem a menor folga entre a cabeça do bebê e a pelve materna entre os grandes primatas (que incluem chimpanzés, gorilas e orangotangos), o parto complicado não é um fenômeno restrito à nossa espécie. O estudo revelou que espécies menores, como macacos-de-cheiro, saguis e gálagos, exibem encaixes tão apertados quanto os humanos, ou até mais extremos. Em alguns casos, a cabeça do filhote pode ser maior que a abertura pélvica no momento do nascimento, um sinal claro de que a singularidade humana nesse aspecto pode ter sido superestimada.

Desafios evolutivos e cooperação no nascimento

A análise aponta que a complexidade do parto não se resume apenas à relação entre o tamanho da cabeça e a pelve. Fatores como a posição do feto, a flexibilidade dos tecidos e outros mecanismos fisiológicos também desempenham um papel crucial. No entanto, os dados coletados nas novas medições 3D indicam que a abertura pélvica em primatas não humanos é, em média, 11% menor do que se estimava anteriormente, com algumas espécies apresentando diferenças superiores a 18%.

A evolução da bipedia, embora vantajosa para a locomoção, também impôs desafios à gestação humana. O peso crescente da barriga no final da gravidez altera o centro de gravidade da mãe, exigindo ajustes posturais e na marcha. Essa adaptação pode ter contribuído para dificuldades no parto mesmo antes do aumento significativo do cérebro humano, como sugerem estudos sobre fósseis como o de Lucy, um Australopithecus afarensis bípede com cérebro pequeno.

Outro obstáculo inerente ao parto humano é a necessidade de o bebê mudar de posição durante a passagem pela pelve. Essa complexidade anatômica tem levado à hipótese de que o nascimento humano pode ter favorecido a cooperação social em torno da gestante. Hipóteses anteriores, como a de Karen Rosenberg e Wenda Trevathan, sugeriram que a dificuldade do bebê em auxiliar o próprio nascimento, devido à sua posição final voltada para as costas da mãe, poderia ter incentivado a ajuda de outros membros do grupo, tornando a assistência ao parto uma prática ancestral.

A professora aposentada da USP, Lia Queiroz do Amaral, reforça que o parto já podia ser difícil antes mesmo do desenvolvimento cerebral avançado. A complexidade da passagem fetal, que envolve rotações e ajustes, é um fator relevante. A ideia de que a assistência ao parto é uma parte intrínseca da história humana é corroborada pela bióloga Mercedes Okumura, que considera a doula ou parteira uma das profissões mais antigas. Embora a necessidade de ajuda não seja universal, o auxílio de outros membros do grupo pode ter sido fundamental para superar partos difíceis ao longo da evolução humana, conforme ressalta Lia Betti, coautora do estudo.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Nature Ecology & Evolution.

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