Investimento direto estrangeiro no Brasil alcança picos históricos, mas analistas alertam para a necessidade de reformas estruturais.
O Brasil registrou um expressivo aumento no Investimento Direto no País (IDP), atingindo o maior volume desde 2017. Nos 12 meses encerrados em maio de 2026, as empresas estrangeiras aplicaram US$ 83,3 bilhões, o equivalente a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB), representando um crescimento de 5,2% em relação ao período anterior. As projeções do mercado financeiro, compiladas pelo Banco Central, indicam otimismo para os próximos anos, com estimativas de US$ 78,3 bilhões para 2027 e US$ 80 bilhões para 2027, 2028 e 2029.
Apesar desses números robustos, que superam as expectativas em um cenário global de incertezas, especialistas apontam que o potencial de crescimento ainda esbarra em desafios internos. A burocracia excessiva, a instabilidade jurídica e o intervencionismo estatal continuam sendo pontos de atenção para investidores internacionais. A entrada de recursos, embora estável, não acelera, o que sugere a necessidade de uma agenda de reformas estruturais mais consistente.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Banco Central e análises de especialistas em consultorias financeiras.
Previsibilidade e agenda econômica: os verdadeiros motores do investimento
Para economistas ouvidos pela reportagem, a alternância de poder político no Brasil tem um peso secundário na decisão de investimento estrangeiro. O que realmente atrai e fideliza o capital internacional é a demanda por previsibilidade: uma agenda econômica clara e consistente, que garanta estabilidade fiscal, respeito aos contratos e uma trajetória crível da dívida pública, independentemente do partido no governo. A regra do jogo, para o investidor, precisa ser clara e duradoura.
“O investidor estrangeiro não questiona se o governo é de direita ou de esquerda, mas sim se a regra de hoje vai ser a mesma daqui a cinco anos”, afirma Jucélia Souza, sócia e economista da Siegen Consultoria. Ela complementa que, embora o Brasil mantenha uma “âncora externa relevante”, sem mudanças estruturais não haverá um aumento significativo nos recursos aplicados.
Oportunidades geopolíticas e o potencial das commodities
Em paralelo aos desafios internos, fatores geopolíticos e as vantagens estruturais do Brasil têm impulsionado a entrada de capital. A distância geográfica em relação a potências como China e Estados Unidos, aliada ao papel do país como grande fornecedor de commodities estratégicas, posiciona o Brasil como um parceiro de menor risco de disrupção no fornecimento global. Em um cenário de busca por diversificação de cadeias produtivas, o país se torna mais atraente.
As tensões entre EUA e China, especialmente em relação a terras raras — minerais essenciais para a transição energética e o avanço tecnológico —, destacam o potencial brasileiro. O país detém a segunda maior reserva mundial desses minerais, atrás apenas da China, embora sua produção ainda seja incipiente. Esse descompasso entre potencial e capacidade instalada atrai olhares para o setor.
Acordo Mercosul-União Europeia como divisor de águas
Outro fator de destaque é a consolidação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. O bloco europeu já é uma das principais fontes de investimento estrangeiro direto no Brasil, e a implementação efetiva do acordo promete intensificar esse fluxo. A expectativa é de maior segurança jurídica, previsibilidade regulatória e facilitação no acesso a mercados, fortalecendo o ambiente de negócios.
Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina da Coface, ressalta que o acordo pode promover um “fortalecimento do ambiente de negócios”, enquanto Letícia Moschioni, sócia da Finscale, o classifica como um “divisor de águas” com potencial para destravar investimentos europeus massivos ao ancorar a estabilidade comercial de longo prazo.
