Secretário-geral da ONU: Guerras recentes expõem limites do poder das superpotências
Secretário-geral da ONU: Guerras recentes expõem limites do poder das superpotências

Secretário-geral da ONU: Guerras recentes expõem limites do poder das superpotências

Guterres aponta “limites do poder” em cenário global instável O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que conflitos recentes, como a invasão da Ucrânia pela Rússia e as tensões entre Estados Unidos e Irã, evidenciaram as limitações do poder das superpotências em um mundo cada vez mais multipolar. Em entrevista, Guterres descartou a ideia de […]

Resumo

Guterres aponta “limites do poder” em cenário global instável

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que conflitos recentes, como a invasão da Ucrânia pela Rússia e as tensões entre Estados Unidos e Irã, evidenciaram as limitações do poder das superpotências em um mundo cada vez mais multipolar. Em entrevista, Guterres descartou a ideia de que a ONU esteja sendo ofuscada, mas alertou para o risco de confrontos maiores se as instituições globais não se adaptarem à nova ordem.

“Está na hora de as superpotências compreenderem os limites de seu poder”, declarou Guterres ao Financial Times, em seu gabinete na sede da ONU em Nova York. Ele ressaltou que a capacidade de grandes potências de impor sua vontade tem sido “severamente limitada”, citando a guerra na Ucrânia, que se arrasta há anos apesar das expectativas russas de uma vitória rápida, e o embate com o Irã, que resistiu à pressão americana e israelense, chegando a fechar o Estreito de Ormuz, via marítima crucial para o fornecimento de energia.

Esses reveses, segundo o líder da ONU, fazem parte de uma transição global, afastando-se da hegemonia americana pós-Guerra Fria para um cenário com múltiplas potências. Guterres rejeitou a ideia de que grupos como o Conselho da Paz de Donald Trump possam rivalizar com o Conselho de Segurança da ONU, apontando a ineficácia de tais iniciativas em crises como a de Gaza. As informações foram reunidas a partir de declarações de António Guterres ao jornal Financial Times.

Desafios e Críticas à ONU

A década de Guterres à frente da ONU tem sido marcada por desafios significativos, incluindo uma crise financeira que afetou o moral da organização e aprofundou divisões entre as potências. O Conselho de Segurança, segundo ele, encontra-se “praticamente paralisado” devido ao veto de potências como Estados Unidos e Rússia, o que, por sua vez, diminui a capacidade de influência da ONU e abre espaço para “agentes desestabilizadores” intervirem em conflitos, como no Sudão.

A organização também enfrentou críticas por uma suposta menor presença em zonas de conflito durante o segundo mandato de Guterres, com um foco percebido em desafios mais amplos, como as mudanças climáticas. No entanto, Guterres defende que a ONU não desistiu da mediação, citando sua recente viagem a Chipre e a persistência em buscar soluções, mesmo com resultados limitados. Ele também mencionou as dificuldades enfrentadas pelos próprios Estados Unidos em mediar conflitos no Líbano, Gaza, Sudão e Líbia.

Relação com os EUA e Reforma Global

A relação com os Estados Unidos, especialmente durante a administração Trump, tem sido um ponto sensível para Guterres e a ONU. Críticas de Israel à atuação da organização e acusações de viés institucional são veementemente rejeitadas por Guterres, que afirma defender o direito de dois povos viverem em paz. A administração Trump, por sua vez, demonstrou frustração com o multilateralismo da ONU, retirando apoio a agências e interrompendo financiamentos, o que levou a cortes orçamentários e demissões na organização, apesar de a ONU ter conseguido manter suas atividades.

Guterres vê a ascensão de “potências médias” como uma tendência positiva, mas alerta para a necessidade de reformas urgentes em instituições globais como o FMI e o Banco Mundial, para que reflitam a realidade atual. A falta de adaptação pode levar a uma multipolaridade que resulte em mais competição e confrontos, como a Europa vivenciou antes da Primeira Guerra Mundial. A reforma do Conselho de Segurança, com poder de veto concentrado em cinco países, é vista como insustentável, especialmente com a predominância europeia entre os membros permanentes. Ele reconhece que a conquista de poder em um conselho reformado será um processo árduo, mas inevitável para que a organização se adapte ao peso relativo das potências no mundo.

O Legado de Guterres e o Futuro da ONU

Ao se aproximar do fim de seu segundo mandato, Guterres reflete sobre os desafios enfrentados, incluindo a pressão para que a ONU tenha maior protagonismo em crises globais. Ele descarta o risco de a organização seguir o caminho da Liga das Nações, destacando que o maior feito da ONU tem sido evitar conflitos entre superpotências. Guterres se orgulha de sua defesa da luta contra as mudanças climáticas e, apesar das limitações de poder inerentes ao cargo, reafirma que sua voz em defesa de um mundo mais justo e pacífico não se calará.

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