A crescente preocupação com o impacto das redes sociais na saúde mental de crianças e adolescentes tem levado a propostas de restrições e proibições em diversos países. No entanto, a psicóloga canadense Candice Odgers, especialista em desenvolvimento infantil e adolescência, contesta a ideia de que essas tecnologias sejam a causa principal dos problemas e alerta que proibições podem não ser eficazes, além de ignorarem fatores mais complexos.
A psicóloga Candice Odgers, professora da Universidade da Califórnia em Irvine, destaca a discrepância entre a percepção popular e as evidências científicas sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental de jovens. Em um TED Talk que já alcançou centenas de milhares de visualizações, Odgers afirma que a narrativa dominante, que aponta smartphones e redes sociais como vilões, é fácil de vender para pais ansiosos, mas carece de embasamento científico robusto. “Estudo a saúde mental de adolescentes há muito tempo, e o que realmente me surpreende nesse debate é a distância enorme que existe entre a narrativa dominante quando se fala sobre os efeitos das redes sociais e o que a grande maioria dos estudos encontrou até hoje”, disse Odgers à BBC News Brasil.
Estudos analisados por Odgers e por um comitê da Academia Nacional de Ciências dos EUA indicam que as associações entre o uso de redes sociais e problemas de saúde mental em jovens são, em geral, pequenas e fracas. Frequentemente, essas correlações desaparecem quando outros fatores importantes, como traumas na infância, histórico familiar e saúde mental dos pais, são considerados. Além disso, a direção da causalidade muitas vezes não é clara: jovens que já enfrentam problemas de saúde mental podem buscar refúgio ou mais conexão online, invertendo a relação.
Odgers ressalta que, embora existam riscos no ambiente online, como bullying, assédio e exposição a conteúdos nocivos, proibir o acesso a smartphones e redes sociais não resolverá o problema e pode até ter o efeito contrário. Tal medida ignora as causas mais profundas das dificuldades enfrentadas pelos jovens, impede a busca por soluções mais eficazes e pode empurrá-los para espaços menos regulados e mais perigosos. A especialista defende a responsabilização das empresas de tecnologia e a necessidade de mais regulamentação para garantir a segurança das plataformas.
Um debate global e a realidade brasileira
A preocupação com o impacto das tecnologias digitais na juventude tem levado governos ao redor do mundo a considerar ou implementar restrições. No Brasil, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a suspensão das transmissões ao vivo (lives) do Discord após um caso grave de indução à automutilação e suicídio de uma adolescente. A plataforma tem até esta segunda-feira (17) para comprovar a adoção de medidas eficazes de proteção a crianças e adolescentes. Em março, entrou em vigor o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que estabelece restrições de conteúdo e controles, mas não impede o uso geral das redes por menores.
Apesar da força da narrativa sobre os perigos das redes sociais, especialistas como Odgers apontam que essa ênfase pode sufocar o debate sobre outras causas cruciais para a crise de saúde mental juvenil. Fatores como instabilidade econômica, violência escolar, incerteza política e problemas de saúde mental dos pais são apontados como influências significativas. A psicóloga argumenta que a busca por uma única explicação simplifica um problema multifacetado e que cada país precisa analisar os fatores específicos que afetam sua população jovem.
Benefícios e responsabilidades no mundo digital
Odgers também reconhece que as redes sociais oferecem benefícios importantes, especialmente para comunidades vulneráveis, proporcionando apoio social, conexão e um espaço para criação e expressão. A chave, segundo ela, está em promover um envolvimento saudável com a tecnologia, ensinando os jovens a utilizá-la para seus objetivos, em vez de demonizá-la. Ela enfatiza que a responsabilidade de construir um ambiente online mais seguro e benéfico é compartilhada entre pais, jovens e empresas de tecnologia.
A psicóloga, que é mãe de dois adolescentes, defende que as decisões sobre o uso de smartphones e redes sociais devem ser tomadas no âmbito familiar, considerando a maturidade e o contexto de cada jovem. Ela compara a orientação para o uso da tecnologia com a preparação dos jovens para explorar o mundo físico, onde também enfrentam riscos e precisam de apoio para desenvolver suas habilidades e autonomia. A abordagem do Brasil, focada em aprimorar o design das plataformas para a segurança de todos, em vez de simplesmente excluir os jovens, é vista por Odgers como um caminho mais promissor.
As informações foram reunidas a partir de declarações da psicóloga Candice Odgers à BBC News Brasil e de seu TED Talk.
