Um esqueleto escavado nas ruínas do Castelo de Stirling, na Escócia, pode reescrever a história militar ao ser identificado como a primeira vítima confirmada de um trabuco, uma das mais temidas máquinas de guerra da Idade Média. Os extensos e complexos ferimentos no indivíduo, apelidado de esqueleto 150 pelos arqueólogos, sugerem um impacto de alta velocidade e força incomensurável, compatível apenas com o lançamento de um projétil de trabuco. A descoberta foi apresentada no 25º encontro da Associação de Paleopatologia em Berlim, lançando nova luz sobre a violência do cerco de 1304.
Descoberto em 1997 durante obras de restauração no castelo, o esqueleto 150 foi encontrado sob o piso da capela real, um local de sepultamento incomum que indicava que os rituais funerários habituais não puderam ser realizados. Essa circunstância levou os pesquisadores a suspeitar que os ossos datavam da batalha que resultou na tomada do castelo pelos ingleses naquele ano. Décadas após a escavação, a análise detalhada por antropólogos da Universidade de Bradford e da Universidade de Uppsala revelou fraturas em zigue-zague, semelhantes às observadas em vítimas de acidentes de trânsito modernos, indicando um golpe violento e de alta velocidade.
As hipóteses iniciais de uma queda das muralhas foram descartadas, pois a posição dos ossos indicava que o indivíduo estava de pé no momento do impacto. A única explicação que se encaixa com a gravidade e a natureza das lesões é o trauma contundente provocado por um projétil pesado e veloz. Os pesquisadores acreditam que o esqueleto 150, provavelmente um defensor do castelo entre os 20 e 30 anos, foi atingido pelas costas enquanto corria para se proteger de um ataque de trabuco. “Foi um trauma imenso, imenso e, felizmente, uma morte instantânea”, afirmou a antropóloga Jo Buckberry, líder da pesquisa.
A Potência Devastadora do Trabuco
Antes da popularização das armas de fogo, os trabucos eram a artilharia pesada da guerra medieval. Essas máquinas funcionavam com um braço pivotante longo, a uma extremidade do qual era presa uma funda com um projétil – frequentemente uma grande pedra – e na outra, um contrapeso massivo. Ao liberar o contrapeso, a funda era lançada com enorme força, arremessando o projétil contra as fortificações inimigas. Embora projetados para derrubar muralhas, seus efeitos eram indiscriminados, podendo atingir qualquer um em seu caminho.
Registros históricos confirmam o uso de trabucos durante o cerco de 1304 ao Castelo de Stirling. O rei Eduardo I da Inglaterra, em sua determinação em capturar a fortaleza, recusou a rendição escocesa e ordenou a continuação do cerco até que pudesse testar o “Warwolf”, supostamente um dos maiores trabucos já construídos. Embora não haja certeza de que o esqueleto 150 tenha sido atingido especificamente pelo Warwolf, a descoberta oferece uma evidência física tangível da letalidade dessas armas e do caos que imperava nos campos de batalha medievais.
A análise do esqueleto 150 não apenas confirma a devastação causada pelos trabucos, mas também demonstra como a arqueologia moderna pode desvendar detalhes da violência e das táticas de guerra em períodos históricos, mesmo quando os registros escritos são incompletos. A descoberta enriquece a compreensão sobre a experiência humana em conflitos antigos, revelando a brutalidade por trás de máquinas de guerra que moldaram o curso da história.
