O colesterol alto é um inimigo silencioso
O excesso de colesterol no sangue, especialmente da lipoproteína de baixa densidade (LDL-C), conhecido como “colesterol ruim”, é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Para pessoas com risco cardiovascular muito alto, como aquelas que já sofreram eventos como infarto ou AVC, as sociedades médicas recomendam manter os níveis de LDL-C abaixo de 50 mg/dL. Mesmo para indivíduos com risco baixo ou alto, as metas são rigorosas, exigindo um controle que muitas vezes vai além do tratamento inicial.
A meta de reduzir o LDL-C em 60% a 70% para atingir os 50 mg/dL é um desafio considerável. Estudos clínicos globais indicam que apenas cerca de 20% dos pacientes conseguem alcançar esses objetivos, o que evidencia a necessidade de abordagens terapêuticas mais robustas e um acompanhamento contínuo. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein.
O papel das estatinas e a busca por terapias combinadas
Tradicionalmente, o tratamento para o colesterol alto baseia-se no uso de estatinas, como atorvastatina e rosuvastatina, que atuam reduzindo a produção de LDL no fígado. No entanto, para uma parcela significativa de pacientes, as estatinas isoladamente não são suficientes para atingir as metas terapêuticas. Nesses casos, a combinação com outros medicamentos, como a ezetimiba, torna-se necessária.
A complexidade do tratamento com múltiplos fármacos frequentemente impacta a adesão dos pacientes. Interrupções voluntárias do tratamento e a recusa em seguir as prescrições médicas são problemas recorrentes. No Brasil, enquanto as estatinas são fornecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), outros medicamentos essenciais para o controle mais rigoroso do colesterol podem ter custos elevados, limitando o acesso para grande parte da população.
Estratégias digitais impulsionam o controle do colesterol
Diante desses desafios, o estudo Sapphire-LDL, conduzido pelo Einstein em parceria com a Novartis e a epHealth, explorou o uso de uma plataforma digital para melhorar a qualidade do tratamento de pacientes com alto risco cardiovascular. A iniciativa buscou otimizar a identificação de pacientes fora da meta e aumentar a adesão ao tratamento, tanto por parte dos profissionais de saúde quanto dos pacientes.
O ensaio clínico envolveu 1.465 pacientes em 28 centros de pesquisa no Brasil. Utilizando aplicativos como o epScience para médicos e epYou para pacientes, a plataforma facilitou o registro do tratamento, o monitoramento dos níveis de colesterol e a comunicação entre pacientes e equipes de saúde. O epYou oferecia lembretes de medicação, conteúdo educativo e a possibilidade de consultas por telemedicina.
Os resultados do estudo, publicados na revista Jama Cardiology, demonstraram que a estratégia de intervenção digital levou a uma concentração média de LDL-C de 76,3 mg/dL no grupo de intervenção, comparado a 85,6 mg/dL no grupo controle. Mais notavelmente, 23,5% dos pacientes no grupo de intervenção atingiram a meta de colesterol inferior a 50 mg/dL, contra 13,4% no grupo controle. Apesar da melhora, os pesquisadores ressaltam que a proporção de pacientes na meta ainda é baixa, indicando a necessidade de terapias mais eficazes e acessíveis.
Novas fronteiras terapêuticas: os inibidores de PCSK9
Os inibidores de PCSK9 representam uma nova promessa no tratamento do colesterol alto. Esses medicamentos, como o evolocumabe e a inclisirana, atuam de forma inovadora, inibindo a proteína PCSK9 e aumentando a capacidade do fígado de remover o LDL do sangue. Sua posologia, com aplicações subcutâneas a cada duas a quatro semanas ou a cada seis meses, oferece uma vantagem significativa em termos de conveniência para os pacientes em comparação com os comprimidos diários.
Contudo, o acesso a esses tratamentos ainda é um gargalo. Não estão disponíveis pelo SUS e, no setor privado, os custos podem ultrapassar R$ 1.000 mensais. Tentativas de incorporação em planos de saúde não foram aprovadas, e discussões sobre regimes especiais com coparticipação ainda estão em andamento. Recentemente, a aprovação do enlicitide nos Estados Unidos, o primeiro inibidor de PCSK9 em comprimido oral, pode representar um passo importante para a redução dos custos futuros dessas terapias.
A importância do controle rigoroso do colesterol é inegável. Pacientes com histórico de eventos cardiovasculares que não aderem ao tratamento apresentam um risco 20% maior de ter um novo evento em três anos. Embora as terapias combinadas com estatinas e ezetimiba já reduzam significativamente esse risco, a adição de terapias mais novas e intensivas pode proporcionar uma redução adicional de 15% a 20%, reforçando a urgência de tornar esses avanços terapêuticos mais acessíveis a todos.
