Origem do surto de Ebola em 2018 na RDC permanece um enigma científico
Origem do surto de Ebola em 2018 na RDC permanece um enigma científico

Origem do surto de Ebola em 2018 na RDC permanece um enigma científico

Mistério científico cerca a origem do surto de Ebola na República Democrática do Congo Desde abril de 2018, um surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) tem gerado preocupação global. Com mais de mil casos confirmados e 279 mortes registradas, esta epidemia se tornou a terceira maior desde a identificação da doença há […]

Resumo

Mistério científico cerca a origem do surto de Ebola na República Democrática do Congo

Desde abril de 2018, um surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) tem gerado preocupação global. Com mais de mil casos confirmados e 279 mortes registradas, esta epidemia se tornou a terceira maior desde a identificação da doença há mais de 50 anos. No entanto, o que mais intriga os cientistas é a origem incerta do patógeno responsável: o vírus Bundibugyo, uma das três espécies virais conhecidas por causar a febre hemorrágica Ebola.

A comunidade científica acredita que o vírus Ebola normalmente reside em animais, saltando ocasionalmente para humanos e desencadeando surtos. Contudo, anos de pesquisa não foram suficientes para identificar onde o vírus Bundibugyo se esconde quando não está ativo em seres humanos. Essa lacuna de conhecimento é um obstáculo significativo para a prevenção de futuras epidemias.

“Não sabemos absolutamente nada sobre o Bundibugyo”, afirma Mekala Sundaram, ecologista da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos. A dificuldade em rastrear a origem do vírus não se restringe ao Bundibugyo; o mesmo se aplica a outros vírus causadores de Ebola e a outros patógenos relacionados que ainda não fizeram a transição para a espécie humana.

Conforme informações divulgadas pelo The New York Times.

A história dos surtos de Ebola e a busca por reservatórios animais

A doença do Ebola foi descoberta em 1976, com surtos simultâneos no antigo Zaire (atual República Democrática do Congo) e no que hoje é o Sudão do Sul. Os sintomas eram alarmantemente semelhantes em ambos os locais: febre, vômitos, hemorragias e, em muitos casos, a morte. Os vírus identificados nos pacientes pertenciam à família dos filovírus, com formato de cobra, mas eram de espécies distintas: o vírus Ebola e o vírus Sudão.

Curiosamente, os cientistas referem-se à espécie que surgiu primeiro no Zaire como vírus Ebola, embora seus parentes, os vírus Sudão e Bundibugyo, também causem a doença. Na época, a hipótese era que, se os surtos de 1976 não estavam ligados, os vírus teriam saltado de algum animal desconhecido para suas primeiras vítimas humanas de forma independente.

Equipes internacionais iniciaram então uma busca por esses reservatórios zoonóticos – as espécies animais capazes de abrigar os vírus. Foram examinados morcegos insetívoros em uma fábrica têxtil onde a primeira vítima do vírus Sudão havia trabalhado, além de ratos, mosquitos e outras espécies. No entanto, nenhum sinal dos vírus foi detectado em animais próximos aos locais dos surtos.

Pistas inconclusivas e novas hipóteses sobre a hospedagem viral

Nas décadas seguintes, pesquisadores encontraram algumas pistas, mas nada conclusivo sobre um reservatório animal definitivo. Em 1996, estudos com o vírus Ebola em 19 espécies animais revelaram que apenas três espécies de morcegos foram capazes de multiplicar o vírus em altos níveis, embora sem adoecer. Sinais do vírus Ebola foram posteriormente identificados em morcegos na natureza, com uma pequena porcentagem de morcegos frugívoros na África apresentando anticorpos e até fragmentos genéticos do vírus em seu sangue.

“Isso não é o mesmo que provar um reservatório”, alerta Sadic Waswa Babyesiza, ecologista e curador do museu da Universidade Makerere, em Uganda. A ecologista Mekala Sundaram sugere que os métodos tradicionais de localização de reservatórios podem falhar com o vírus Ebola.

Uma hipótese é que o vírus possa se esconder em humanos por anos, em locais como olhos e sêmen, reativando-se e desencadeando novos surtos. Não se sabe se morcegos frugívoros também desenvolvem infecções persistentes; caso desenvolvam, a busca pelo vírus em seu sangue seria infrutífera, pois os testes tradicionais não detectariam o patógeno escondido nesses “pequenos bolsões”.

Redes ecológicas complexas e a incerteza sobre outros vírus Ebola

Sundaram também levanta a possibilidade de que morcegos frugívoros persistentemente infectados transmitam o vírus a outros quando se reúnem para se alimentar. Árvores frutíferas poderiam se tornar pontos de disseminação para outras espécies, incluindo humanos, através da saliva e fezes dos animais infectados.

A maior parte da pesquisa se concentrou no vírus Ebola, o mais conhecido e causador de mais mortes. Evidências sólidas de reservatórios para o vírus Sudão e o vírus Bundibugyo são escassas. Cientistas examinaram milhares de animais de centenas de espécies sem encontrar sinais claros dos vírus Sudão ou Bundibugyo, alertando contra a suposição de que morcegos frugívoros sejam os únicos hospedeiros.

Um vírus relacionado, o Bombali, descoberto em 2018, foi encontrado em morcegos insetívoros, não frugívoros, e não há evidências de que tenha saltado para humanos. Mesmo que morcegos sejam reservatórios, eles podem ser apenas parte de uma rede ecológica maior e em grande parte desconhecida de animais que transmitem patógenos entre si.

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