A Polícia Federal (PF) vislumbra um longo caminho para a conclusão da Operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master. O volume de material apreendido até o momento sugere que a operação, iniciada em novembro do ano passado, pode se desdobrar em até 60 novas fases. Apesar de informações robustas apontarem para a suposta ligação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, não há indícios de que apurações sobre os magistrados estejam em andamento.
Fontes próximas às investigações afirmam que não existem sinais de que ministros, seus familiares ou o esquema do Banco Master estejam sob escrutínio. Uma investigação contra um membro da Corte Suprema requer autorização do próprio STF, um passo que, segundo as apurações, ainda não foi dado. A PF, embora não comente oficialmente sobre operações em curso, avalia que a força-tarefa possui um vasto campo de atuação, com foco principal em autoridades e representantes dos Três Poderes que ofereceram sustentação política e institucional ao esquema.
O caso é considerado o maior escândalo do setor bancário brasileiro. A estimativa do rombo deixado pela liquidação extrajudicial do Banco Master e de instituições ligadas ao conglomerado, como o Will Bank e o Banco Pleno, gira em torno de R$ 52 bilhões, mas cifras superiores não são descartadas. Esse prejuízo, o maior já registrado em uma quebra bancária no país e um dos mais significativos globalmente, recaiu sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), comprometendo quase metade de seus recursos. A situação levou bancos públicos e privados a discutir medidas para recompor o fundo e garantir a proteção aos investidores.
A análise do material apreendido nas dez primeiras fases da Compliance Zero revela uma complexa rede de envolvimento político e institucional do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Perícias, cruzamentos de informações, análise de milhares de documentos, relatórios físicos, planilhas e cerca de 120 dispositivos eletrônicos, além de vasto material em nuvem, indicam um emaranhado de supostas fraudes e envolvimentos que ainda precisam ser esclarecidos. A expectativa interna é que a operação se estenda por meses, possivelmente até 2027, sendo já considerada uma das maiores investigações de corrupção e lavagem de dinheiro da história da corporação, superando em potencial a Operação Lava Jato em número de fases previstas.
Próximos Alvos e Calendário Eleitoral
Investigadores estimam ter executado apenas entre 15% e 20% do cronograma total da operação. Os dados extraídos dos materiais apreendidos têm gerado novas linhas de investigação em efeito cascata, conectando operadores financeiros, empresas, agentes públicos e núcleos políticos. Entre os potenciais próximos alvos estão ramificações ligadas a fundos de previdência estaduais e municipais, empresas de fachada, estruturas de desinformação e beneficiários de supostas vantagens indevidas, muitos deles figuras influentes em Brasília. O calendário eleitoral, longe de paralisar a operação, pode até mesmo intensificá-la, segundo avaliam os investigadores. Embora a legislação imponha restrições à prisão de candidatos em período próximo às eleições, medidas como buscas, apreensões, bloqueios de bens e novas frentes investigativas podem continuar sendo autorizadas pela Justiça.
A tendência é que as próximas etapas priorizem operadores financeiros, empresários e estruturas técnicas, buscando reduzir o risco de questionamentos sobre eventual interferência no processo eleitoral. O volume de material pendente de análise alimenta a expectativa de novas revelações nas próximas semanas e meses, inclusive durante a campanha eleitoral, o que pode ampliar o desgaste de agentes públicos eventualmente atingidos pelas investigações. Criminalistas e doutores em Direito Público ressaltam que, embora haja restrições específicas nos 15 dias que antecedem a eleição, onde prisões só ocorrem em flagrante delito ou por crimes inafiançáveis, outras medidas cautelares como buscas e apreensões, bloqueios de bens e quebras de sigilo não sofrem impedimentos legais durante o período eleitoral, desde que devidamente fundamentadas por decisão judicial.
Análise Técnica e Continuidade das Operações
A prioridade atual permanece na análise técnica das provas reunidas, consideradas suficientes para sustentar dezenas de novas fases. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou recentemente que a corporação manterá o cumprimento de operações policiais normalmente durante o período eleitoral, pois a existência do calendário eleitoral não impede a atuação da PF diante de indícios de crimes. Ele enfatizou que a PF não pode suspender suas atividades quando há elementos que justifiquem medidas cautelares, e que cada operação segue o devido rito processual, dependendo de autorização judicial. Cada fase da Compliance Zero requer o aval do ministro do STF André Mendonça, relator do caso Master, que também consulta a Procuradoria-Geral da República. Até o momento, a investigação já atingiu senadores como Ciro Nogueira e Jaques Wagner, além de outras autoridades e membros da família de Daniel Vorcaro, com quatro de seus parentes presos, incluindo o próprio ex-banqueiro.
