O Brasil experimenta um boom de carros elétricos, mas mercados mais maduros já apontam para os próximos desafios. China, Europa e Estados Unidos acumulam experiências cruciais para antecipar as etapas futuras da eletrificação no território nacional, especialmente no que tange à desvalorização de veículos usados, à necessidade de oficinas especializadas e à pressão sobre a infraestrutura.
Enquanto o mercado brasileiro de veículos elétricos (VEs) vive um crescimento exponencial, impulsionado em grande parte por marcas chinesas, países como China, Europa e Estados Unidos já enfrentam o envelhecimento de suas frotas eletrificadas. A experiência internacional oferece um panorama sobre os obstáculos que o Brasil poderá encontrar nos próximos anos, como a rápida depreciação de modelos usados e a crescente demanda por serviços de manutenção e reparo específicos.
A China, líder mundial em VEs, serve como um estudo de caso primordial. Em 2025, o país já contava com cerca de 44 milhões de carros elétricos em circulação, e as vendas de elétricos usados superaram 1,5 milhão de unidades. Contudo, esse mercado secundário aquecido é marcado por uma acentuada pressão sobre os preços. Carros elétricos chineses com três anos de uso, em média, retiveram apenas 46% de seu valor original em 2024, caindo para 42% no final de 2025, um índice inferior ao do mercado geral de usados. Essa desvalorização é atribuída à rápida evolução tecnológica, com a chegada de modelos mais acessíveis e com baterias mais eficientes, que reduziram o preço médio dos elétricos novos em mais de 10% na China em 2025.
A experiência internacional, incluindo a europeia, corrobora essa tendência de desvalorização. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a retenção de valor de carros elétricos em mercados analisados caiu de aproximadamente 50% em 2022 para 35% em 2025. No Brasil, a busca por carros elétricos chineses, segundo dados do Google Trends, aumentou 250% nos últimos cinco anos, evidenciando um interesse crescente que pode replicar os desafios de desvalorização à medida que a frota nacional envelhece.
Manutenção e Desgaste da Bateria: Desafios em Evolução
A manutenção de veículos elétricos, embora com menos componentes mecânicos tradicionais, exige conhecimento técnico especializado em sistemas de alta tensão, baterias e eletrônica. A expansão da frota brasileira demandará um ecossistema de oficinas independentes, profissionais qualificados e sistemas de diagnóstico que acompanhem o avanço tecnológico. Atualmente, uma vasta maioria das oficinas no Brasil ainda não está preparada para atender esses veículos, com estimativas indicando que cerca de 99% das oficinas associadas a entidades do setor no Paraná não possuem a infraestrutura necessária.
O desgaste da bateria é outro fator que ganhará relevância com o tempo. Embora a perda de capacidade seja gradual, ela afeta a autonomia e, consequentemente, o valor de revenda. Estudos indicam uma degradação média de 2,3% ao ano, podendo chegar a 3% anualmente em veículos que utilizam recarga rápida. A avaliação da condição da bateria se tornará crucial na compra de um elétrico usado, exigindo testes específicos para mitigar incertezas sobre autonomia e custos futuros. O destino dessas baterias, seja por reparo, reaproveitamento ou reciclagem, também representa um desafio logístico e ambiental a ser desenvolvido no Brasil.
Impacto na Infraestrutura e Mudanças em Incentivos
A crescente preferência por SUVs e veículos maiores, aliada à necessidade de baterias de maior capacidade para ampliar a autonomia, resulta em um aumento do peso médio dos carros. Essa característica pode pressionar a infraestrutura urbana, elevando os custos de manutenção de pavimentos. Na China, o governo já estuda formas de financiar a restauração de vias, e a expansão dos VEs, que não geram receita de impostos sobre combustíveis, força a busca por novas fontes de financiamento, como a possível tributação exclusiva para proprietários de carros elétricos, discussão que já se inicia no Brasil.
A experiência dos Estados Unidos também alerta para a sensibilidade do mercado de VEs a mudanças em políticas de incentivo. O fim de créditos tributários federais nos EUA levou a uma queda acentuada nas vendas. No Brasil, o programa Mover e a retomada gradual do imposto de importação sobre eletrificados, que atingiu 35% em julho de 2026, demonstram como a conjuntura de incentivos pode influenciar preços e oferta. O desafio para o país será consolidar o crescimento da frota eletrificada, equilibrando a adoção de novas tecnologias com a preparação para os desafios inerentes ao amadurecimento do mercado.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gazeta do Povo e Google Trends.
