O eleitor brasileiro tem neste domingo (25) a tarefa de escolher não apenas o próximo presidente da República, mas também os caminhos que a economia do país irá trilhar nos próximos anos. As duas principais candidaturas oferecem visões de mundo e estratégias econômicas radicalmente distintas, que vão desde a atuação do Estado até a gestão das contas públicas. A decisão nas urnas definirá se o Brasil seguirá com a política atual, que prioriza o papel do Estado e programas sociais, ou se optará por uma guinada com foco na redução de gastos, privatizações e maior participação da iniciativa privada.
De um lado, o atual chefe do Executivo e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), defende a continuidade da estratégia adotada em seu terceiro governo. Essa abordagem, que elevou os gastos no Orçamento, resultou em um aumento da dívida pública de 71,7% para 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) durante seu mandato. Para equilibrar as contas, o governo recorreu à criação e aumento de impostos, buscando compensar a pressão orçamentária.
Em contrapartida, Flávio Bolsonaro (PL) apresenta uma agenda de ruptura, com propostas de enxugamento da máquina pública, redução de despesas, corte de impostos e um forte impulso às privatizações e à iniciativa privada. A diferença entre os projetos se manifesta de forma mais clara na questão fiscal: Lula aposta no crescimento econômico e no aumento da arrecadação para melhorar gradualmente as contas públicas, preservando gastos sociais e investimentos. Já Bolsonaro promete um ajuste fiscal mais rápido e contundente, com medidas a serem apresentadas logo após a eleição.
Independentemente do resultado, o próximo presidente herdará um cenário desafiador, marcado por alta dívida, despesas crescentes e margem limitada para aumentar gastos sem fontes de receita claras. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Metropoles e pelo Portal da Câmara dos Deputados.
Flávio Bolsonaro: Corte de gastos e Estado menor
O programa de Flávio Bolsonaro parte do diagnóstico de que o principal entrave ao crescimento do país é o tamanho e a rigidez do Estado, especialmente o avanço das despesas obrigatórias. A campanha prevê cortes em despesas administrativas, revisão de estruturas governamentais, combate a fraudes e maior participação do setor privado em atividades hoje sob responsabilidade estatal.
Entre as primeiras medidas cogitadas, está a redução do número de ministérios, de 38 para 25 ou 26, com fusões entre pastas. A agenda econômica inclui também privatizações, concessões e a venda de imóveis da União, visando não apenas levantar recursos, mas também diminuir a intervenção direta do governo. Bolsonaro defende a redução de tributos e a simplificação regulatória, além de uma nova regra fiscal atrelada à trajetória da dívida pública.
O símbolo da ruptura proposta é a chamada Super PEC, que almeja reduzir as despesas primárias em até R$ 200 bilhões. A proposta, que poderia ser apresentada antes da posse, representa uma tentativa de alterar a trajetória das despesas públicas, com mudanças na estrutura administrativa e revisão de regras de gastos.
Lula: Estado como motor de crescimento e programas sociais
O plano econômico de Lula baseia-se na premissa de que o Estado deve manter um papel relevante na promoção do crescimento. A estratégia combina investimentos públicos, estímulo à indústria, financiamento por bancos públicos e políticas de transferência de renda. O Novo PAC e o uso do BNDES para financiar projetos de longo prazo são centrais, assim como a preservação e ampliação de programas como o Bolsa Família.
A política de valorização real do salário mínimo, que aumenta o poder de compra e as despesas previdenciárias, também segue como prioridade. A continuidade da reforma tributária sobre o consumo e a busca por maior progressividade tributária, com aumento da tributação sobre rendas mais altas e sobre dividendos, compõem o projeto. A campanha argumenta que a redução da desigualdade e o aumento do consumo familiar impulsionam o crescimento.
No entanto, essa estratégia chega ao fim do mandato com as contas públicas ainda sob pressão. A proposta de Orçamento de 2027 prevê um superávit primário modesto, e projeções independentes indicam a necessidade de cortes de despesas para cumprir as metas fiscais, indicando um desafio significativo para o próximo governo.
O Legado Fiscal para 2027
O próximo presidente iniciará seu mandato com um quadro fiscal apertado. Embora o governo Lula projete um resultado primário positivo para 2027, analistas consideram a estimativa otimista. A Instituição Fiscal Independente (IFI) aponta para um déficit considerável e destaca que, para cumprir a meta oficial, seria necessário congelar bilhões em despesas. O problema reside na alta proporção de despesas obrigatórias no orçamento, que consomem a maior parte dos recursos e deixam pouca margem para cortes discricionários.
Medidas eleitoreiras anunciadas na reta final da campanha podem agravar o cenário, com estimativas apontando para um aumento significativo da dívida bruta. O governo já prevê remanejamentos internos no orçamento de 2027 para acomodar parte dessas iniciativas. Se as receitas não se concretizarem, o bloqueio de outras despesas se torna inevitável para manter a meta fiscal.
O resultado é um orçamento com pouca margem de manobra. O próximo presidente terá que fazer escolhas difíceis: comprimir gastos, rever políticas ou buscar novas fontes de receita. A disputa eleitoral, portanto, transcende a escolha de programas de governo, definindo se o foco será na preservação da estrutura de gastos e no crescimento impulsionado pelo Estado, ou em um corte drástico de despesas para reequilibrar as contas e estimular o setor privado.
