O ciclo vicioso do desamor no TikTok
Após o término de um relacionamento, o feed do TikTok de Jasmine Barnett, uma contadora de 27 anos, transformou-se drasticamente. Vídeos de comédia e exercícios foram substituídos por um fluxo incessante de conteúdo sobre desilusões amorosas. Inicialmente acolhedor, o conteúdo que incluía análises de estilos de apego e “autópsias” de relacionamentos logo se tornou opressor. Mesmo tentando bloquear temas de término, o algoritmo persistia, inundando sua tela com imagens de pessoas chorando e previsões sobre ex-parceiros.
Essa experiência não é isolada. Defensores da saúde mental apontam o manejo de conteúdo pós-término por plataformas como o TikTok como uma falha significativa na proteção dos usuários. A imersão em materiais sobre rompimentos, segundo especialistas, pode aumentar o engajamento ao manter os usuários em um estado de ruminação e luto, com consequências potencialmente graves para o bem-estar psicológico. As informações foram reunidas a partir de reportagens do The New York Times.
Como o algoritmo “sabe” que você está sofrendo
O algoritmo do TikTok é notório por sua capacidade de personalizar o feed e manter os usuários engajados. No universo do “BreakupTok”, isso se traduz em uma avalanche de relatos pessoais, conselhos para cortar contato com ex-parceiros, transformações pós-relacionamento e orientações de terapeutas e coaches especializados. Michael Rich, do Digital Wellness Lab do Hospital Infantil de Boston, sugere que a plataforma reage a estados emocionais de vulnerabilidade, especialmente em momentos de “nova solidão”, visando maximizar o tempo de permanência do usuário.
Embora não seja capaz de ler emoções diretamente, o TikTok monitora o comportamento do usuário – tempo de visualização, velocidade de rolagem, interações como curtidas e compartilhamentos – para refinar as recomendações. Essa dinâmica pode criar um ciclo vicioso, onde a busca por engajamento da plataforma se choca com a necessidade de recuperação emocional do indivíduo.
A armadilha da rolagem infinita
Pesquisas indicam que a exposição contínua a conteúdo sobre relacionamentos passados nas redes sociais após um término pode ser prejudicial. Encontrar ex-parceiros ou informações sobre eles pode intensificar o sofrimento, retardar a recuperação e inibir o crescimento pessoal. A natureza aparentemente interminável de alguns feeds, combinada com notificações e outros gatilhos, pode incentivar o uso excessivo. Especialistas como Jodi Halpern, professora de bioética da Universidade da Califórnia em Berkeley, alertam que táticas manipuladoras que incentivam o uso exagerado de plataformas digitais têm sido associadas à piora da saúde mental e, em casos extremos, a consequências graves.
O TikTok reconheceu em 2021 que vídeos podem “reforçar involuntariamente uma experiência pessoal negativa” e afirmou ter implementado medidas para “interromper padrões repetitivos” e evitar a recomendação de conteúdo semelhante. A empresa também oferece ferramentas de bem-estar, como limites de tempo de tela.
Ajuda ou atrapalho? A dualidade do conteúdo de término
Nem todos os usuários relatam experiências negativas. Alguns encontram consolo e validação em conteúdos sobre término, sentindo-se compreendidos e obtendo conselhos úteis. Ana Ruiz, por exemplo, sentiu que o conteúdo consumido no Instagram a ajudou a processar seu relacionamento e a perda.
Por outro lado, Jason Salem descreve o conteúdo sobre término no Instagram e YouTube como “totalmente viciante”, levando-o a passar horas consumindo vídeos que, segundo ele, atrasaram sua recuperação e o distraíram de aspectos importantes de sua vida. O terapeuta Jeff Guenther, com milhões de seguidores no TikTok, explica que, em momentos de luto intenso, o cérebro tende a buscar conteúdos que reforcem a percepção de que “algo está muito errado”, mantendo uma conexão emocional com o ex. Ele ressalta a existência de conteúdo útil, mas alerta para vídeos “incrivelmente envolventes” que colocam toda a culpa no ex-parceiro, impedindo o crescimento pessoal e a autoanálise.
