A política externa do governo Lula tem sido alvo de intensas críticas, especialmente após novos embates diplomáticos que evidenciam um distanciamento de parceiros tradicionais e uma condução que, segundo analistas, prioriza ideologia em detrimento do pragmatismo. O recente episódio envolvendo o presidente argentino Javier Milei, que chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”, e as declarações sobre interferência eleitoral e restrições à visita a Jair Bolsonaro, reacenderam o debate sobre os rumos da diplomacia brasileira. Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires e chamou o embaixador argentino no Brasil para expressar a “repulsa” do governo. Este incidente se soma a uma série de tensões diplomáticas desde o início do mandato, alimentando o questionamento sobre a eficácia e a imagem internacional do país.
Analistas internacionais ouvidos pela reportagem apontam cinco fatores principais que teriam contribuído para o acúmulo de erros estratégicos na política externa do atual governo, desgastando a imagem do Brasil no cenário global. Entre eles, destacam-se o predomínio de posicionamentos ideológicos em detrimento de interesses nacionais, o desgaste com parceiros estratégicos, a aproximação com regimes autoritários, a perda de protagonismo internacional e uma condução considerada personalista.
Ideologia acima do pragmatismo
Um dos pontos mais criticados é a alegada subordinação do pragmatismo diplomático a afinidades políticas e ideológicas. Cezar Roedel, analista internacional e doutor em Filosofia, avalia que o governo tem privilegiado discursos e alinhamentos ideológicos, afastando-se da tradição diplomática brasileira. “O principal erro foi deixar a ideologia se sobrepor ao pragmatismo que deveria guiar qualquer política externa séria. O governo insistiu em pautar sua atuação internacional por afinidades ideológicas com regimes autoritários”, afirma Roedel.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, compartilha essa visão, descrevendo a política externa como um retorno ao “terceiro-mundismo” anacrônico, que prioriza discursos políticos em detrimento de estratégias de Estado. “Os principais erros estratégicos decorrem de um anacronismo ideológico que subordina o pragmatismo de Estado aos velhos dogmas do terceiro-mundismo antiocidental”, declara Coimbra.
Desgaste com parceiros estratégicos
O acúmulo de crises diplomáticas com países considerados fundamentais para os interesses brasileiros é outro fator de preocupação. Roedel cita o desgaste com Israel, após declarações de Lula sobre a guerra em Gaza, os atritos recentes com os Estados Unidos e a deterioração das relações com a Argentina como exemplos de episódios que geraram “ruídos diplomáticos sem ganhos concretos para o Brasil”. Segundo ele, tais situações podem impactar negociações comerciais e afastar investimentos estrangeiros.
Coimbra observa que essas crises revelam uma combinação de reposicionamento político e falhas na execução diplomática, com o governo rompendo pontes com parceiros históricos enquanto fortalecia laços com governos ideologicamente alinhados.
Aproximação com regimes autoritários
A aproximação com países como Venezuela, Nicarágua e Rússia também tem sido alvo de críticas. A reação do governo brasileiro ao anúncio do presidente nicaraguense Daniel Ortega sobre o fim das eleições no país, por exemplo, foi considerada lenta e branda por analistas e pela oposição, que apontaram uma resposta considerada inadequada diante de uma ruptura democrática. Após repercussão, o Itamaraty expressou “preocupação” e reafirmou a importância de eleições livres.
Roedel argumenta que o alinhamento com regimes ditatoriais reduz a previsibilidade do Brasil para investidores e parceiros comerciais. Coimbra complementa que essa postura contribui para a perda de capacidade de interlocução e relevância internacional do país, reduzindo sua credibilidade e protagonismo ao invés de ampliá-los.
Perda de protagonismo e condução personalista
Especialistas também apontam uma redução na influência brasileira em temas internacionais, com crises evitáveis consumindo capital diplomático sem ganhos geopolíticos relevantes. Coimbra afirma que o Brasil perdeu espaço como mediador regional, citando a crise na Venezuela e o impasse nas negociações entre Mercosul e União Europeia.
Ambos os analistas atribuem parte desses desgastes à condução da política externa, que, segundo Roedel, tem sido executada sem o devido cuidado diplomático. Coimbra considera que a política externa reflete mais as posições pessoais e ideológicas do presidente do que a tradição institucional do Itamaraty, ampliando atritos diplomáticos e gerando reações no Congresso Nacional.
Congresso amplia fiscalização
Diante das tensões internacionais, o Legislativo tem intensificado a fiscalização sobre o Itamaraty. Embora as convocações e moções de repúdio tenham efeito jurídico limitado, elas aumentam o custo político das decisões do Executivo, transformando o debate sobre política externa em um assunto com peso eleitoral. A atuação do Congresso é vista como um mecanismo de contenção institucional, sinalizando ao exterior que certas posições governamentais podem não refletir um consenso nacional.
Itamaraty defende sua atuação
Em contrapartida, o Ministério das Relações Exteriores sustenta que o Brasil ampliou sua presença internacional durante o atual mandato. O ministério detalha um grande número de reuniões de alto nível e encontros bilaterais de Lula com chefes de Estado e de governo, além da participação em fóruns internacionais como o G7, ASEAN, União Africana e Caricom. O Itamaraty também destaca a conclusão de acordos de livre comércio e a presidência brasileira do G20, BRICS e COP30 como resultados da política externa.
A pasta rebate as críticas de alinhamento automático com governos como Rússia, Venezuela e Nicarágua, citando a condenação brasileira à invasão russa da Ucrânia, críticas a violações de direitos humanos na Nicarágua, defesa da transparência nas eleições venezuelanas e até a representação dos interesses argentinos em Caracas a pedido do próprio governo Milei. Segundo o Itamaraty, a diplomacia presidencial, focada no interesse nacional e amparada no prestígio de Lula, tem sido decisiva para esses avanços.
