Uma visão contemporânea da tragédia shakesperiana chega às telas brasileiras, recontextualizando a história de vingança e poder no cenário da moderna metrópole londrina.
A aguardada adaptação de Hamlet, dirigida por Aneil Karia e estrelada por Riz Ahmed, desembarca no Brasil após gerar burburinho na crítica internacional. O filme ousa transpor a clássica tragédia de William Shakespeare da Dinamarca renascentista para a vibrante e complexa Londres do século XXI. Neste novo cenário, as disputas familiares, a especulação imobiliária e os jogos de poder ganham protagonismo, substituindo a corte de Elsinore e oferecendo uma reinterpretação da obra sob uma ótica cinematográfica mais dinâmica.
A trama, roteirizada por Michael Lesslie, apresenta Hamlet como o herdeiro de uma influente família sul-asiática, proprietária da incorporadora Elsinore, que assume o papel simbólico do castelo da peça original. O retorno do protagonista ao lar, após um período no exterior, é marcado pela morte do pai e pela aparição de seu fantasma. A aparição revela uma verdade chocante: o antigo CEO foi assassinado por Cláudio, irmão da vítima e atual líder dos negócios familiares. Essa revelação impulsiona Hamlet em sua jornada de busca por respostas e vingança.
O elenco de peso inclui, além de Riz Ahmed no papel principal, nomes como Morfydd Clark, Joe Alwyn, Sheeba Chaddha, Art Malik, Timothy Spall e Avijit Dutt, que dão vida aos complexos personagens em um contexto moderno.
Elogios e ressalvas da crítica especializada
A crítica especializada tem recebido a adaptação com considerável aprovação, destacando a ousadia da transposição para o cinema contemporâneo. Nicolas Rapold, em sua crítica para o The New York Times, ressalta como a direção de Karia transforma os conflitos internos de Hamlet em movimento e tensão visual. Um exemplo citado é a icônica cena de Hamlet declamando “Ser ou não ser” enquanto dirige em alta velocidade pelas ruas de Londres. A atuação de Riz Ahmed é consistentemente elogiada por sua intensidade e inquietação física, com a câmera acompanhando de perto a jornada do protagonista. No entanto, Rapold aponta que a agilidade narrativa pode ter sacrificado parte das nuances filosóficas e emocionais presentes na obra original de Shakespeare.
Sheila O’Malley, do RogerEbert.com, ecoa esses elogios, mas aprofunda a análise das escolhas de adaptação. Segundo ela, a necessidade de condensar a peça para o formato cinematográfico levou à exclusão de personagens e cenas, concentrando a narrativa na experiência psicológica de Hamlet. O’Malley destaca a interpretação de Ahmed como um homem dividido entre o desejo de vingança e a dificuldade em assumir o papel de herói trágico. Soluções criativas para momentos clássicos, como a transformação da peça dentro da peça em um espetáculo de dança, também são mencionadas. Como contraponto, a crítica sugere que a ausência de alívios cômicos pode ter desequilibrado o drama, tornando a tragédia por vezes excessivamente pesada, embora recomende a obra.
Peter Bradshaw, do The Guardian, descreve o filme como uma releitura austera, fria e inteligente. Ele compara o Hamlet de Ahmed ao personagem Kendall Roy da série “Succession”, aproximando o drama shakespeariano do universo das grandes corporações familiares. A incorporação da especulação imobiliária ao conflito central, retratando Cláudio como um empresário implacável, é um ponto forte para Bradshaw. O crítico elogia a performance de Ahmed, marcada por fragilidade e autoaversão, e a atmosfera de tensão constante, que chega a sugerir que o fantasma pode ser uma alucinação de Hamlet. Uma ressalva significativa é a omissão da cena da loucura de Ofélia, considerada uma decisão equivocada.
Consenso e divergências
As análises convergem ao apontar a atuação de Riz Ahmed como o principal trunfo da adaptação. Aneil Karia é reconhecido por priorizar ritmo, tensão e linguagem cinematográfica em detrimento da fidelidade estrutural à peça original. Há um consenso de que essa escolha, embora eficaz, resulta em uma redução da complexidade filosófica e de momentos cruciais da obra de Shakespeare.
A recepção do público, contudo, diverge da crítica especializada. Enquanto o filme alcança 72% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes, o índice cai para 54% entre o público geral, indicando que a abordagem contemporânea ressoou mais fortemente na imprensa do que entre os espectadores.
Disponibilidade no Brasil
No Brasil, “Hamlet” está acessível para assinantes do Amazon Prime Video e também disponível para locação digital a partir de R$ 14,90 na Loja Prime. O longa também foi disponibilizado em plataformas de aluguel digital como Apple TV e Google Play.
