O perigo oculto por trás da adrenalina
A emoção de sentir o vento no rosto e a velocidade em uma montanha-russa pode ter um lado sombrio e perigoso. Um caso recente em São Paulo, onde uma jovem de 28 anos sofreu hemorragia craniana e edema cerebral após andar na montanha-russa Montezum, do Hopi Hari, reacende o debate sobre os riscos de lesões neurológicas e na coluna em atrações radicais. A jovem retornou da atração desacordada e convulsionando, necessitando de internação prolongada, sete cirurgias e resultando em sequelas motoras e cognitivas.
As investigações sobre o incidente estão em andamento, com o Ministério Público e a Polícia Civil apurando as circunstâncias. O parque, por sua vez, afirma que a atração possui certificação internacional e passa por inspeções regulares, seguindo normas de segurança. No entanto, o episódio levanta a questão fundamental: como movimentos de alta intensidade podem afetar o corpo humano de forma tão drástica, mesmo sem um impacto direto?
As informações foram reunidas a partir de reportagens e estudos sobre os efeitos de montanhas-russas no corpo humano.
O mecanismo de contragolpe e o cérebro em movimento
Uma lesão cerebral em uma montanha-russa pode ocorrer mesmo sem uma pancada direta na cabeça. Isso se deve à física do movimento: o cérebro, envolto por líquido dentro do crânio, não está fixo às suas paredes ósseas. Quando a cabeça é submetida a acelerações e desacelerações bruscas, o crânio acompanha o movimento, mas o cérebro, por inércia, tende a continuar se deslocando. Esse movimento pode levar o cérebro a colidir com as paredes internas do crânio, lesionando vasos sanguíneos e tecidos. O mecanismo conhecido como contragolpe ocorre quando a lesão acontece no lado oposto ao ponto de impacto aparente.
Estudos com sensores em montanhas-russas confirmaram que o cérebro realmente se desloca e se deforma durante o passeio. Contudo, os pesquisadores ressaltam que esse movimento nem sempre resulta em lesão aguda. A intensidade da força experimentada não está diretamente ligada à velocidade máxima da atração, mas sim à variação da velocidade e direção em curtos períodos, e à forma como a cabeça se movimenta. A força G, que mede a aceleração em relação à gravidade, é um indicador crucial, assim como os movimentos lineares e rotacionais da cabeça, que podem esticar ou comprimir diferentes partes do cérebro.
O efeito chicote e a coluna cervical sob pressão
O pescoço e a coluna cervical também são áreas vulneráveis aos movimentos extremos das montanhas-russas. A cabeça humana é relativamente pesada e repousa sobre a coluna cervical, que é a parte mais móvel da espinha. Durante as mudanças abruptas de velocidade, a cabeça pode ser projetada para trás e depois para frente, em um movimento semelhante a um chicote. Este “efeito chicote” pode causar desde dores musculares e lesões em ligamentos até, em casos mais graves, afetar discos intervertebrais, vértebras e a medula espinhal, comprometendo a mobilidade.
Um estudo realizado nos Estados Unidos acompanhou mais de 900 mil viagens em uma montanha-russa e registrou centenas de lesões no pescoço e nas costas. Deste total, uma parcela significativa foi classificada como lesões significativas, incluindo problemas em discos cervicais e fraturas de vértebras. Os pesquisadores concluíram que não existe um limite de aceleração seguro que garanta a ausência de lesões graves, pois a resposta do corpo às forças varia entre indivíduos, dependendo de fatores físicos e condições pré-existentes da coluna.
O caso de Nathalia Assenjo Motta, que relatou uma lesão cervical após um passeio na Montezum em 2018, que exigiu cirurgia e a colocação de pinos e hastes, exemplifica a gravidade que essas lesões podem atingir, mesmo que ela tenha recuperado a mobilidade corporal, a do pescoço ficou limitada. O parque, na ocasião, pagou uma indenização por danos materiais.
Riscos raros, mas graves: AVC e dissecção arterial
Em situações ainda mais raras, os movimentos bruscos do pescoço podem comprometer as artérias que levam sangue ao cérebro. Pode ocorrer a ruptura da parede de uma artéria, conhecida como dissecção, que, ao formar um coágulo, pode levar a um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Relatos desse tipo foram associados a passeios em montanhas-russas, com uma revisão de literatura descrevendo casos de AVC e outras lesões neurológicas em crianças e adolescentes. No entanto, os autores enfatizam que esses eventos são incomuns.
Outro estudo analisou atendimentos de emergência nos EUA envolvendo menores de 18 anos e estimou milhares de casos relacionados a lesões de cabeça e coluna, sendo as lesões no pescoço mais frequentes, mas em sua maioria não graves. No caso de Júlia, as perícias buscarão reconstruir os movimentos da Montezum e avaliar se as forças aplicadas foram compatíveis com o mecanismo de contragolpe relatado e com a gravidade das lesões detectadas.
