O dilema do parto no Brasil: entre o desejo e a realidade
Apesar de sete em cada dez brasileiras iniciarem a gestação com o desejo de vivenciar o parto normal, a realidade frequentemente as conduz à cesárea. Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que a falta de informação adequada, o medo da dor e deficiências na estrutura de saúde transformam essa preferência inicial em uma escolha cirúrgica, muitas vezes sem indicação clínica.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cesarianas representem entre 10% e 15% do total de partos. No Brasil, contudo, esse índice assusta: 47,6% em hospitais públicos e alarmantes 81,3% na rede privada, segundo o levantamento.
A pesquisa, que ouviu gestantes, puérperas e profissionais de saúde em Belém e São Paulo, além de analisar artigos científicos e documentos oficiais, evidencia um cenário multifatorial. A especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, detalha que a decisão é influenciada por aspectos psicológicos, como o receio da dor e o despreparo para o parto vaginal, e sociais, com forte interferência de familiares e parceiros. No âmbito estrutural, a escassez de anestesia para o parto normal, a falta de leitos adequados para um parto humanizado e a ausência de informação padronizada completam o quadro.
A “lei da cesárea” e o receio de processos judiciais
Em São Paulo, a legislação estadual que garante à mulher o direito de optar pela cesárea mesmo sem necessidade médica, em vigor desde 2019, tem sido apontada como um fator que eleva a pressão por cirurgias. Nos hospitais públicos estudados, a taxa de cesarianas saltou de cerca de 20% para até 45% após a implementação da lei. Profissionais de saúde relataram ao estudo o temor de enfrentar processos judiciais caso não atendam ao pedido de cesárea diante da pressão de familiares que buscam uma solução rápida para o sofrimento da gestante.
A influência de relatos negativos de mulheres próximas, como mães e sogras, também contribui para a crença de que o parto normal é intrinsecamente difícil e a cesárea, uma alternativa prática e previsível. Outra barreira identificada é a associação da cesárea com a realização imediata da laqueadura, um procedimento que, no parto vaginal, exige espera por dias devido à falta de estrutura hospitalar.
Desigualdades no acesso e riscos da cesárea sem indicação
No setor privado, a dificuldade em encontrar médicos que ofereçam o parto normal é uma realidade, pois a contratação de equipes para esse modelo de assistência tende a ser mais custosa para as instituições do que uma cesárea agendada. Mulheres com maior acesso à informação e recursos financeiros, no entanto, conseguem encontrar profissionais que apoiam o parto vaginal.
É crucial ressaltar que, em gravidezes de baixo risco, a cesariana sem necessidade clínica está associada a desfechos piores para mãe e bebê. Estudos indicam que o procedimento pode triplicar o risco de morte materna e aumentar em cinco vezes a chance de embolia amniótica.
A busca por um parto humanizado e os desafios persistentes
No Sistema Único de Saúde (SUS), a opção pelo parto normal muitas vezes decorre da necessidade de a mulher se recuperar rapidamente para cuidar do bebê sozinha, o que pode implicar em suportar um parto doloroso devido à vulnerabilidade social. No entanto, o parto normal nem sempre é humanizado no país, com mulheres enfrentando a falta de preparo das equipes médicas.
A discussão sobre a garantia de um parto humanizado no Brasil tramita há mais de uma década, com projetos de lei visando a adoção de diretrizes mínimas. Contudo, leis estaduais que facilitam a escolha pela cesárea avançaram mais rapidamente. A humanização do parto, segundo Stephanie Amaral, não se refere à via de nascimento, mas ao respeito e ao cuidado com a mulher, que muitas vezes se sente em desvantagem quando busca maior protagonismo e informação.
Apesar de avanços recentes, como a nova caderneta da gestante e o reconhecimento da doula, o desafio de colocar essas mudanças em prática persiste. Entre 2022 e 2025, apenas 8,6% das mulheres no SUS receberam analgesia durante o parto vaginal, embora seja um direito constitucional, índice que sobe para 32% na rede privada. Para o Unicef, o caminho passa pelo conhecimento dos próprios direitos pelas mulheres, demandando uma experiência de parto positiva e respeitosa.
O Unicef lançou uma plataforma online com informações sobre os benefícios do parto vaginal, direitos da gestante e orientações práticas para o pré-natal, incluindo o plano de parto, visando fortalecer o acesso à informação e a ressignificação do momento do nascimento.
