Pesquisa Datafolha revela divergências sobre o fim da vida no Brasil
A opinião pública brasileira se mostra majoritariamente contrária à morte assistida, englobando eutanásia e suicídio assistido. No entanto, o debate sobre a interrupção de tratamentos em pacientes sem chance de cura divide o país, conforme aponta a primeira pesquisa Datafolha sobre o tema. O levantamento, realizado nos dias 3 e 4 de agosto com 2.050 pessoas em 137 municípios, indica que 56% dos brasileiros são contra a eutanásia, onde um profissional aplica a medicação letal, e 60% se opõem ao suicídio assistido, em que o próprio paciente administra o fármaco. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
As divergências se acentuam quando a questão aborda a interrupção de tratamentos que apenas prolongam a vida artificialmente, sem perspectiva de cura. Neste cenário, a pesquisa revela um empate técnico: 48% dos entrevistados acreditam que os médicos deveriam ter a permissão para interromper tais procedimentos, enquanto outros 48% discordam. Essa divisão reflete a complexidade moral e ética envolvida na decisão de fim de vida.
Os dados foram coletados por meio de entrevistas presenciais e cobriram todas as regiões do Brasil. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Datafolha.
Diferentes visões sobre o direito de decidir sobre a própria morte
Em uma formulação mais ampla, que questionou a concordância com a afirmação de que cada indivíduo deveria ter o direito de decidir sobre o fim da própria vida, incluindo o momento e a forma de morrer, mesmo que isso signifique antecipar a morte, a discordância prevaleceu. Cerca de 51% dos entrevistados discordaram da afirmação, enquanto 46% concordaram. A diferença entre esses grupos é a mais estreita registrada na pesquisa, desconsiderando o empate sobre a interrupção de tratamentos.
Quando a pergunta foi direcionada a considerar moralmente aceitável ou errado um médico ajudar um paciente terminal a encerrar a própria vida a pedido dele, 51% consideraram a conduta moralmente errada, e 42% a consideraram aceitável. Uma parcela de 4% optou pela resposta “depende da situação”.
Religião e idade como fatores de influência nas opiniões
A pesquisa também evidenciou que a religião e a idade são fatores que influenciam significativamente as opiniões sobre o tema. Entre os evangélicos, a aceitação moral da ajuda médica para o fim da vida foi de 34%, enquanto entre os que não têm religião, o percentual chegou a 57%. Católicos (41%) e adeptos de outras religiões (46%) se posicionaram em patamares intermediários.
A idade se mostrou como o recorte que mais diferencia as respostas. Jovens de 16 a 24 anos apresentaram maior aceitação da conduta moralmente aceitável (63%), com esse percentual diminuindo progressivamente nas faixas etárias subsequentes, chegando a 29% entre os entrevistados com 60 anos ou mais. Esse padrão de queda se repetiu em outras questões relacionadas ao tema.
Marco legal e cenário internacional
O Brasil ainda não possui legislação específica sobre morte assistida, e a eutanásia é tipificada como crime de homicídio no Código Penal, com pena de 6 a 20 anos, podendo ser reduzida em casos de “motivo de relevante valor social ou moral” (homicídio por misericórdia). O auxílio ao suicídio também é crime, com pena de dois a seis anos de reclusão.
Em contraste, na América Latina, Colômbia, Equador e Uruguai já permitem alguma forma de morte assistida. A Colômbia foi pioneira, descriminalizando a eutanásia em 1997 e, mais recentemente, o suicídio assistido. O Equador autorizou a eutanásia em 2024, e o Uruguai legalizou a prática por lei em 2025. No mundo, 16 países permitem a morte assistida em parte ou na totalidade de seus territórios.
A primeira associação brasileira em prol do direito à morte assistida, a Eu Decido, foi fundada em 2025, presidida pela advogada especialista em direito médico Luciana Dadalto, que atribui o silêncio sobre o tema no Brasil à falta de debate legislativo.
