Aparência de Ariana Grande gera debate sobre transtornos alimentares
A recente publicação do videoclipe “Petal” da cantora e atriz Ariana Grande, de 33 anos, desencadeou uma onda de comentários nas redes sociais a respeito de sua magreza. Embora a artista não tenha confirmado ter qualquer transtorno alimentar, as imagens reacenderam a discussão sobre o tema e a forma como a sociedade percebe a saúde física e mental. Usuários expressaram preocupação, com postagens como “Em que momento alguém vai intervir para ajudar? Ela está definhando” e “Queremos você saudável, e não parecendo que um vento mais forte vai te levar pelos ares”. Em resposta à repercussão, um representante da artista informou à revista People que Grande planeja um recesso após o término de sua atual turnê, o “Eternal Sunshine”, com o último show agendado para 1º de setembro em Londres. Segundo a publicação, essa decisão seria motivada pelo escrutínio público sobre sua aparência e corpo.
As informações foram reunidas a partir de reportagens da Folha e da revista People.
Desmistificando a aparência dos transtornos alimentares
Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que transtornos alimentares não devem ser diagnosticados apenas pela aparência física ou por uma magreza extrema. É possível que uma pessoa apresente um peso considerado normal para sua altura e, ainda assim, sofra intensamente com questões relacionadas à alimentação e à imagem corporal. A psicóloga Cláudia Melo, especialista em vícios e transtornos, enfatiza a necessidade de desconstruir a ideia de que transtornos alimentares possuem uma “cara” específica. Ela aponta que muitos dos sinais manifestam-se no comportamento, como a preocupação excessiva com calorias e peso, restrições alimentares severas, exclusão de grupos alimentares inteiros, prática excessiva de exercícios físicos e o afastamento de situações sociais que envolvam alimentação.
A psicóloga Mariana Ramos, professora de psicologia na Afya Itaperuna, complementa que sinais como isolamento social, irritabilidade, insatisfação crônica com o próprio corpo e pensamentos recorrentes sobre comida e aparência também podem indicar a presença de um transtorno. “A pessoa pode começar a evitar restaurantes, festas e até encontros familiares por medo de perder o controle da alimentação e sentir uma culpa intensa após comer determinados alimentos. Também pode desenvolver rituais rígidos durante as refeições ou eliminar grupos alimentares sem indicação médica”, explica Ramos.
Como oferecer apoio de forma eficaz
Diante da percepção de que alguém próximo pode estar enfrentando um transtorno alimentar, a forma de abordar a situação é crucial. As especialistas recomendam evitar comentários diretos sobre o peso ou a aparência da pessoa. Frases como “você está muito magra” ou “você precisa comer” podem gerar sentimentos de vergonha e levar ao distanciamento. Em vez disso, a sugestão é focar em mudanças comportamentais concretas observadas no cotidiano, como o distanciamento social ou dificuldades em se alimentar na presença de outros. O objetivo é demonstrar preocupação com o bem-estar geral, sem que a conversa se torne uma cobrança.
Cláudia Melo sugere que expressar que se conhece a pessoa antes de um possível adoecimento e notar como ela está agora pode criar um ambiente de segurança. “Essa comparação entre o antes e o depois pode fazê-la se sentir mais segura, porque ela percebe que há alguém que cuida dela, que a conhece de verdade e que está ali para ouvi-la. Talvez, a partir dessa conversa, ela se sinta mais à vontade para falar sobre o que está acontecendo”, afirma Melo.
Mariana Ramos corrobora a importância de evitar críticas, visto que a pessoa já pode lidar com uma autocrítica elevada e sentimentos de culpa internalizada. Ela propõe demonstrar preocupação com o sofrimento e oferecer ajuda de maneira acolhedora. “Por exemplo, dizer ‘tenho percebido que você parece estar sofrendo e queria saber como posso te ajudar’. Uma conversa acolhedora, disponível, com tranquilidade, pode ser o passo para que essa pessoa aceite e busque ajuda”, indica Ramos.
Tratamento multiprofissional e apoio familiar
O tratamento de transtornos alimentares geralmente envolve uma equipe multidisciplinar, que pode incluir psicólogos, psiquiatras, nutricionistas e médicos para acompanhamento clínico. A composição exata da equipe varia conforme as necessidades individuais de cada paciente. Além disso, as especialistas ressaltam que o núcleo familiar também pode se beneficiar de orientação para compreender o transtorno e aprender a oferecer o suporte adequado. O foco não deve ser a fiscalização da alimentação, mas sim a criação de um ambiente de apoio e a redução de julgamentos. “Em alguns casos, incluímos a família no tratamento, já que o ambiente familiar também pode contribuir para o sofrimento da pessoa. Às vezes, precisamos lembrar que não se trata de vaidade, falta de disciplina ou uma escolha. Estamos falando de um transtorno”, conclui Melo.
