A ciência dos insetos entra em cena nas investigações
Em casos onde a decomposição avança e os vestígios tradicionais se perdem, pequenos artrópodes se tornam aliados cruciais da justiça. A entomologia forense, ciência que aplica o estudo de insetos e outros artrópodes em investigações, tem se mostrado fundamental para desvendar crimes e responder questionamentos legais, especialmente quando o tempo se torna um inimigo na coleta de evidências. A perita criminal Janyra Oliveira da Costa, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, destaca que a área é uma “amiga do cadáver decomposto”, auxiliando na determinação do Intervalo Pós-Morte (IPM) em situações onde a identificação inicial do óbito se torna impossível.
Um exemplo prático da aplicação da entomologia forense ocorreu com o corpo de uma brasileira que faleceu no exterior e teve sua identificação dificultada ao chegar ao Brasil. Ao analisar larvas da mosca Chrysomya megacephala encontradas no corpo, Janyra conseguiu estimar a data do óbito com base no ciclo de vida do inseto e na temperatura a que ele foi exposto. Este tipo de análise representa cerca de 95% do trabalho da perita, que se dedica a calcular o tempo decorrido entre a morte e a descoberta do corpo.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e estudos acadêmicos sobre entomologia forense.
Além do tempo: DNA, toxicologia e crimes ambientais
O potencial da entomologia forense vai além da determinação do IPM. Em crimes sexuais seguidos de morte, onde o material genético do agressor pode se degradar rapidamente no corpo da vítima, as larvas podem se tornar depositárias desse DNA. Ao se alimentarem, elas incorporam vestígios genéticos que, posteriormente, podem ser extraídos e analisados no intestino do inseto, fornecendo pistas sobre o autor do crime. Da mesma forma, insetos podem acumular substâncias químicas presentes no corpo, como medicamentos, drogas ou venenos, auxiliando em análises toxicológicas e na elucidação da causa da morte.
No estado de Santa Catarina, a divisão de entomologia forense da polícia, criada em 2022, já demonstra sua relevância. Em seu primeiro ano, o departamento identificou 21 espécies de insetos e contribuiu para o cálculo do IPM em 34 casos. Um caso notório envolveu uma ossada humana parcialmente enterrada em Florianópolis, onde a ação de cupins no crânio permitiu estimar que a morte ocorreu entre três e seis anos antes. Apesar do potencial, alguns peritos ainda relatam resistência à coleta de insetos, muitas vezes associada a sentimentos de repulsa, embora em cidades como Joinville o cálculo do IPM por meio da entomologia já seja uma prática comum.
Desafios e novas fronteiras da ciência forense
Apesar do avanço científico e da produção brasileira ser referência mundial na área, a aplicação da entomologia forense na prática policial ainda enfrenta obstáculos. A professora Patrícia Thyssen, da Unicamp, que atua na área desde 1996, relembra o ceticismo inicial e a falta de conhecimento sobre o tema. Ela ressalta a importância de protocolos padronizados para garantir a confiabilidade das provas coletadas.
Um levantamento de 2022 indicou que uma parcela significativa de profissionais de entomologia forense não possui procedimentos definidos para coleta, manejo e identificação de insetos em cadáveres. O professor Simão Dias Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco, aponta que o foco predominante no IPM, em um cenário de rápida remoção de corpos para o Instituto Médico-Legal (IML), contribui para a subutilização da área. Ele defende a popularização da eficiência da entomologia forense e a expansão de suas aplicações.
Uma fronteira promissora para a entomologia forense são os crimes ambientais. Estudos recentes em Fernando de Noronha, utilizando tecidos animais em decomposição para atrair moscas, permitiram identificar a dominância de espécies invasoras, oferecendo insights sobre a preservação ambiental e possíveis negligências na proteção de ecossistemas. Essa aplicação, ainda em estágio inicial, demonstra o potencial da ciência para monitorar a saúde ambiental e coibir atividades ilegais que afetam a natureza.
