O discurso de soberania do governo Lula tem sido um pilar de sua estratégia política, especialmente em resposta a pressões internacionais. No entanto, essa postura defensiva em relação a interferências externas contrasta com a crescente dificuldade do Estado brasileiro em exercer sua autoridade sobre partes significativas do próprio território nacional, dominadas por facções criminosas e atividades ilícitas. Especialistas apontam essa dissonância como uma vulnerabilidade que pode ser explorada pela oposição, pois a percepção do eleitorado sobre a ameaça à soberania parece mais ligada à criminalidade interna do que a questões tarifárias ou diplomáticas.
A defesa da soberania ganhou força na agenda de Lula desde o confronto com tarifas impostas pelos Estados Unidos em julho do ano passado. Contudo, a noção de soberania, para especialistas em Relações Internacionais e Ciência Política, vai além da autonomia em políticas externas, englobando a capacidade de o Estado impor sua lei e ordem em todo o território. Quando organizações criminosas passam a controlar comunidades, impor regras e restringir a liberdade de circulação, a soberania nacional é, na prática, colocada em xeque. Essa realidade é observada em grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro, em regiões do Nordeste, e em áreas estratégicas da Amazônia e do Pará, onde o garimpo ilegal e o narcotráfico desafiam o poder público.
Dados recentes corroboram essa percepção de fragilidade. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revelou que facções criminosas já atuam em 45% dos municípios da Amazônia Legal. No Rio de Janeiro, estima-se que cerca de 4 milhões de pessoas vivam em áreas sob influência de grupos criminosos, com restrições à liberdade de ir e vir. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) também apontou falhas na política nacional de fronteiras para o combate ao crime organizado transnacional. Essas informações, divulgadas por veículos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF) e o Instituto Fogo Cruzado, indicam uma crise de autoridade estatal em diversas regiões do país.
A criminalidade e a violência têm se consolidado como a principal preocupação do eleitorado brasileiro, superando temas como saúde e corrupção, conforme indicam pesquisas recentes da BTG/Nexus. Nesse contexto, a estratégia do governo de focar no discurso da soberania, embora tenha gerado dividendos políticos imediatos ao desviar o foco de problemas econômicos e de segurança, pode ter atingido seu limite. A oposição busca explorar essa contradição, argumentando que a defesa da soberania externa se torna vazia diante da incapacidade de garantir a ordem interna.
O debate da soberania e a percepção pública
A estratégia de Lula de transformar o confronto com os Estados Unidos em um embate nacionalista parece ter resgatado o governo em momentos de baixa popularidade. Ao criar um “inimigo externo”, o governo buscou deslocar o debate público para uma agenda mais favorável, atenuando o desgaste com a economia e a segurança interna. Essa tática, segundo analistas, é uma “estratégia de sobrevivência política” que busca ocultar fracassos internos.
No entanto, a eficácia dessa estratégia é questionada, especialmente diante da percepção de que a maior ameaça à soberania reside no crime organizado interno. Enquanto o discurso nacionalista pode ressoar com eleitores de esquerda, o eleitorado de centro pode ser mais sensível a questões concretas de segurança. A oposição tem a oportunidade de explorar esse “calcanhar de Aquiles” do governo, associando a soberania à segurança pública e à perda de controle estatal.
A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos e a reação do Planalto, que a considerou uma ingerência e uma tentativa de desqualificar o combate nacional, intensificaram o debate. Especialistas argumentam que o governo evita aprofundar essa discussão porque a incongruência entre a firmeza externa e a fragilidade interna se torna mais evidente. A influência de grupos criminosos sobre o território e o voto em áreas sob seu domínio torna o tema da soberania interna um ponto sensível e de difícil gestão para o governo.
