EUA assumem papel de acionistas em empresas estratégicas, com reflexos no Brasil
EUA assumem papel de acionistas em empresas estratégicas, com reflexos no Brasil

EUA assumem papel de acionistas em empresas estratégicas, com reflexos no Brasil

Governo americano adota estratégia de participação acionária em empresas de tecnologia e mineração Uma nova política de investimentos diretos do governo dos Estados Unidos no capital de empresas privadas tem ganhado força, com potencial para influenciar setores estratégicos e cadeias de suprimentos globais, inclusive com repercussões no Brasil. A abordagem, que se distancia dos tradicionais […]

Resumo

Governo americano adota estratégia de participação acionária em empresas de tecnologia e mineração

Uma nova política de investimentos diretos do governo dos Estados Unidos no capital de empresas privadas tem ganhado força, com potencial para influenciar setores estratégicos e cadeias de suprimentos globais, inclusive com repercussões no Brasil. A abordagem, que se distancia dos tradicionais subsídios e incentivos fiscais, visa garantir o acesso a recursos essenciais e fortalecer a competitividade americana em um cenário de crescente rivalidade geopolítica, especialmente com a China.

A estratégia se manifesta em diversos acordos. Um exemplo notório é a discussão para que a OpenAI, criadora do ChatGPT, ceda uma participação de 5% ao governo americano. Essa movimentação se insere em um movimento mais amplo iniciado na gestão Trump, que prevê a participação estatal em companhias consideradas vitais para a segurança nacional e o desenvolvimento tecnológico.

Relatórios recentes de think tanks americanos, como o Council on Foreign Relations (CFR) e o Center for Strategic and International Studies (CSIS), detalham o alcance dessa política. Desde o início de 2023, os EUA anunciaram investimentos na casa dos US$ 26,7 bilhões em cerca de 30 acordos de participação acionária. Departamentos como o de Comércio, Defesa, Energia e a Development Finance Corporation (banco de desenvolvimento dos EUA) figuram entre os principais agentes dessa iniciativa.

As informações foram reunidas a partir de reportagens do Financial Times e relatórios do Council on Foreign Relations e do Center for Strategic and International Studies.

Ações em setores chave e a conexão brasileira

Entre os investimentos de maior destaque estão participações em empresas como a U.S. Steel, onde o governo americano detém uma “golden share” com direitos especiais de governança, e a Intel, com uma fatia de 9,9%. Um caso com impacto direto no Brasil é a aquisição da USA Rare Earth, que detém 10% da empresa americana, pela Serra Verde. Localizada em Goiás, a Serra Verde opera a única mina de argilas iônicas em produção fora da Ásia e tem projeção de responder por mais da metade da oferta mundial de terras raras pesadas fora da China até 2027.

A aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth reforça a estratégia americana de diversificar o acesso a minerais críticos, essenciais para indústrias como defesa, inteligência artificial e semicondutores, reduzindo a dependência da China, que domina o processamento global desses materiais. O governo americano busca garantir o suprimento desses recursos vitais, que podem ser usados como ferramenta de pressão geopolítica.

Vantagens e dilemas da intervenção estatal

Especialistas apontam que essa política pode sinalizar confiança ao mercado e atrair investimentos privados. No entanto, o CSIS também alerta para possíveis desvantagens, como o risco de politização do setor privado, clientelismo e a incerteza sobre o sucesso a longo prazo da estratégia. Um dos dilemas levantados é a possibilidade de o governo priorizar objetivos de política pública em detrimento dos interesses financeiros das empresas e acionistas, além de potenciais conflitos de interesse entre o papel do Estado como investidor e como regulador.

Um episódio que ilustra essa complexidade ocorreu com a Intel. Em um momento, Donald Trump questionou o CEO da empresa, Lip-Bu Tan, por ligações com companhias chinesas. Pouco depois, o governo americano anunciou a aquisição de 9,9% da Intel. Essa dualidade de posições levanta questões sobre a clareza e a consistência das ações governamentais.

Segurança de suprimentos e rivalidade com a China

Allan Gallo, pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, explica que o principal motor dessa política é a busca pela segurança das cadeias de suprimentos em setores estratégicos, como terras raras e semicondutores. A estratégia se intensifica em um contexto de acirrada competição com a China, que detém o controle de grande parte do processamento global de terras raras e já utilizou esse domínio para exercer pressão.

Gallo detalha que, na visão de Washington, o mercado por si só não é capaz de criar cadeias de suprimento alternativas robustas. Diante da capacidade chinesa de praticar preços baixos e inviabilizar produtores ocidentais, o governo americano intervém com instrumentos como preços mínimos garantidos e contratos de compra de longo prazo. A participação acionária, como nos casos da Intel e da USA Rare Earth, permite ao governo dividir riscos, capturar valorização e obter assento nas decisões, mesmo que a justificativa oficial seja de “interesse econômico, não de governança”.

Em outros casos, como com Nvidia e AMD, onde não houve investimento direto, o governo monetiza o acesso a mercados controlados via licenças de exportação, uma prática mais próxima de um tributo sobre exportação. Gallo também aponta para o risco de o Estado ter que arbitrar a competição entre empresas nas quais detém participação, como ocorre com a MP Materials e a USA Rare Earth no segmento de terras raras, levantando a questão de como o governo lidará com esses conflitos de interesse.

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