Estudo revela que 90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias
Estudo revela que 90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias

Estudo revela que 90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias

Médicos recém-formados demonstram insegurança ao comunicar diagnósticos difíceis. Uma pesquisa recente publicada na Revista Bioética revela uma preocupante lacuna na formação médica brasileira: 90% dos médicos recém-formados declaram não se sentir capacitados para comunicar más notícias a pacientes e seus familiares. A maioria considera o treinamento recebido durante a graduação insuficiente para lidar com situações […]

Resumo

Médicos recém-formados demonstram insegurança ao comunicar diagnósticos difíceis.

Uma pesquisa recente publicada na Revista Bioética revela uma preocupante lacuna na formação médica brasileira: 90% dos médicos recém-formados declaram não se sentir capacitados para comunicar más notícias a pacientes e seus familiares. A maioria considera o treinamento recebido durante a graduação insuficiente para lidar com situações delicadas, como a comunicação de diagnósticos graves e prognósticos. O estudo, que ouviu 2.418 médicos em 2016 e foi concluído em 2022, destaca que cerca de 40% nunca tiveram qualquer treinamento formal sobre o tema, e mesmo entre aqueles que tiveram aulas, a percepção é de que a abordagem foi inadequada.

Daniel Alveno, fisioterapeuta do Hospital São Paulo da Unifesp e autor da pesquisa, enfatiza o risco inerente a essa falta de preparo. “Se é exigida essa habilidade quando ele vai trabalhar e atender esses pacientes com perfil de doença grave, ameaçadora da vida, mas ele nunca recebeu treinamento para isso, a chance de errar nessa comunicação é muito grande”, afirma. A pesquisa buscou avaliar a percepção dos recém-formados antes de iniciarem suas especializações.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados na Revista Bioética.

A comunicação humanizada como pilar da medicina

Sandro Schreiber, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), não se surpreende com os resultados. Ele aponta que a luta por um maior investimento na formação humanística do médico, que abrange a comunicação em geral e a de más notícias em particular, é antiga na educação médica do país. Alveno, com mais de 15 anos de experiência em cuidados paliativos, defende a importância da clareza na comunicação para que o paciente possa planejar sua vida, em vez de viver apenas em função do tratamento.

Questões como a natureza da doença, a expectativa de vida, as chances de cura e a justificativa para tratamentos invasivos, como quimioterapia ou cirurgia, precisam ser abordadas com cuidado e transparência. Alveno ressalta que, na prática, essa comunicação detalhada nem sempre ocorre, o que pode comprometer a adesão ao tratamento e a qualidade de vida do paciente, que muitas vezes não compreende o impacto de cada etapa em sua recuperação e bem-estar.

Desconhecimento de protocolos e desafios éticos

O estudo também revelou um déficit no conhecimento sobre protocolos estruturados para a comunicação de notícias difíceis. Aproximadamente 65% dos médicos participantes disseram conhecer o protocolo Spikes, um método amplamente utilizado em seis etapas (Preparação, Percepção, Convite, Conhecimento, Emoções, Estratégia e resumo) para guiar essas conversas. No entanto, entre 29% e 35% desconheciam a existência de tais ferramentas, que oferecem um roteiro para auxiliar os profissionais a não se perderem em momentos de alta carga emocional.

A etapa de lidar com as emoções foi apontada como a mais complexa (29,2%), seguida pela comunicação do conhecimento (22,86%). O óbito foi o assunto mais difícil de comunicar (57,8%), com pais sendo considerados os familiares mais desafiadores de informar sobre uma morte súbita (87,38%). Um dado alarmante é que, apesar de 95,8% acreditarem no direito do paciente de saber sobre sua condição, 32,89% dos médicos concordam em omitir informações ao paciente em conluio com a família, a chamada “conspiração do silêncio”, uma prática considerada antiética e vedada pelo Código de Ética Médica.

Reformulação curricular e o futuro da formação médica

Diante desse cenário, o estudo aponta para a urgência de reformular os currículos médicos, incluindo treinamentos estruturados que abordem tanto os aspectos técnicos quanto os emocionais da comunicação de notícias difíceis. Sandro Schreiber informa que as novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina, publicadas em 2025, já reforçam a obrigatoriedade do ensino de habilidades de comunicação, incluindo a de más notícias. Contudo, ele ressalta que a inclusão no currículo é apenas o primeiro passo, sendo fundamental a ampliação do uso de simulações e a criação de uma cultura entre docentes e discentes de que comunicar uma má notícia exige técnica e treinamento específico.

A expectativa é que as futuras turmas de médicos cheguem mais preparadas, uma vez que os cursos de graduação passaram a ser obrigados a incluir o tema de cuidados paliativos em seus currículos, o que naturalmente abrange a comunicação de prognósticos e notícias difíceis.

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