Inglaterra reconhece 'misoginia médica' como falha estrutural do sistema de saúde
Inglaterra reconhece ‘misoginia médica’ como falha estrutural do sistema de saúde

Inglaterra reconhece ‘misoginia médica’ como falha estrutural do sistema de saúde

O governo britânico deu um passo inédito ao admitir formalmente a “misoginia médica” como uma falha estrutural dentro do Serviço Nacional de Saúde (NHS). A iniciativa, parte da Nova Estratégia de Saúde da Mulher lançada em abril deste ano, representa uma mudança significativa na forma como o sistema de saúde lida com as disparidades de […]

Resumo

O governo britânico deu um passo inédito ao admitir formalmente a “misoginia médica” como uma falha estrutural dentro do Serviço Nacional de Saúde (NHS). A iniciativa, parte da Nova Estratégia de Saúde da Mulher lançada em abril deste ano, representa uma mudança significativa na forma como o sistema de saúde lida com as disparidades de tratamento entre homens e mulheres.

Um artigo publicado no periódico científico The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health destacou a iniciativa como um marco histórico. A estratégia atualiza políticas anteriores, reconhecendo que a abordagem focava nas consequências do problema, e não em suas causas profundas. Ao nomear explicitamente a “misoginia médica”, o governo sinaliza a necessidade de uma reforma sistêmica e abrangente.

A declaração oficial afirma: “Vamos agir com base nas vozes e escolhas das mulheres. Ouvimos exemplos demais de mulheres que não foram escutadas. O NHS tem um problema de misoginia médica e não vamos nos esquivar desse desafio”. A nova política define a misoginia médica não como casos isolados, mas como um padrão de cuidado paternalista, centralizado e voltado aos interesses dos profissionais, em detrimento das necessidades das pacientes.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health e pelo governo britânico.

Evidências e Mudanças Implementadas

A Nova Estratégia de Saúde da Mulher apresenta dados e casos conhecidos no Reino Unido que ilustram como a dor feminina é frequentemente normalizada ou ignorada, e como os corpos das mulheres foram historicamente subrepresentados na ciência médica. Uma consulta pública realizada em 2022, com quase 100 mil participantes, revelou que 8 em cada 10 mulheres britânicas relatam já ter sido ignoradas por profissionais de saúde.

Levantamentos plurianuais do governo também indicam que mulheres internadas recebem menos dignidade e respeito do que homens, com menos oportunidades de expressar suas preocupações. Para combater essa realidade, o Reino Unido está implementando medidas concretas.

Novas Regras e Diretrizes

Entre as mudanças está a criação da “Regra de Jess”, nomeada em homenagem a Jessica Brady, que faleceu após ter seus sintomas de câncer ignorados em múltiplas consultas. Essa norma obriga os médicos a reavaliar casos de pacientes que retornam com o mesmo sintoma sem diagnóstico após três atendimentos. Adicionalmente, pacientes e familiares poderão solicitar a avaliação de outra equipe clínica quando sentirem que suas queixas não estão sendo ouvidas.

Procedimentos como histeroscopia e inserção de DIU agora exigirão consentimento informado e oferta de analgesia, uma vez que um terço das mulheres relata dor severa durante a histeroscopia sem sedação no NHS. Em outra frente, órgãos financiadores de pesquisa de saúde deixarão de apoiar estudos que não considerem as diferenças biológicas entre os sexos, buscando corrigir a histórica exclusão de dados femininos em ensaios clínicos.

Impacto Global e Contexto Brasileiro

A misoginia médica não é um problema restrito ao Reino Unido. Estudos globais apontam para o subdiagnóstico e tratamento inadequado de infartos em mulheres, e longos períodos de espera para diagnósticos de endometriose e adenomiose. No Canadá, mulheres com traumatismo cranioencefálico têm menos chances de serem encaminhadas a centros especializados em comparação com homens. Especialistas apontam que o conhecimento médico foi historicamente construído a partir de vieses de gênero, refletindo a influência masculina na produção científica.

No Brasil, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) orienta a evitar qualquer tipo de discriminação. Contudo, a professora Carmen Diniz, da USP, ressalta que a “misoginia médica” remete a uma hostilidade que se manifesta de diversas formas na medicina, e o reconhecimento formal dessa questão, como feito na Inglaterra, é um passo crucial para a mudança estrutural desde a formação dos profissionais.

Tags:

Veja Também

Resistência do STF à direita e a ameaça de impeachment de ministros ganham força na eleição

Resistência do STF à direita e a ameaça de impeachment de ministros ganham força na eleição

PGR defende envio de armas de Bolsonaro ao Exército para destruição ou doação

PGR defende envio de armas de Bolsonaro ao Exército para destruição ou doação

Ossos descobertos em Taiwan ampliam o mistério sobre os enigmáticos Denisovanos

Ossos descobertos em Taiwan ampliam o mistério sobre os enigmáticos Denisovanos

Novos fármacos e adesão ao tratamento: a batalha contra o colesterol alto no Brasil

Novos fármacos e adesão ao tratamento: a batalha contra o colesterol alto no Brasil

SUS lança teleatendimento psicológico para mulheres vítimas de violência

SUS lança teleatendimento psicológico para mulheres vítimas de violência