Escassez na Bolívia: Voos Domésticos Viram Rota de Abastecimento em Meio a Protestos
Escassez na Bolívia: Voos Domésticos Viram Rota de Abastecimento em Meio a Protestos

Escassez na Bolívia: Voos Domésticos Viram Rota de Abastecimento em Meio a Protestos

Crise em La Paz impulsiona mercado aéreo para suprir demanda por alimentos básicos. Em meio a intensos protestos que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, a Bolívia enfrenta uma grave crise de desabastecimento, especialmente na capital La Paz. Os bloqueios nas estradas do país, que já completam dois meses, dificultam o acesso a alimentos […]

Resumo

Crise em La Paz impulsiona mercado aéreo para suprir demanda por alimentos básicos.

Em meio a intensos protestos que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, a Bolívia enfrenta uma grave crise de desabastecimento, especialmente na capital La Paz. Os bloqueios nas estradas do país, que já completam dois meses, dificultam o acesso a alimentos e produtos essenciais, disparando seus preços. Como alternativa, o transporte aéreo doméstico se tornou uma rota crucial para abastecer a cidade, transformando aeroportos em verdadeiros centros de distribuição improvisados.

Um exemplo gritante da escassez é o preço do frango. Em La Paz, um frango inteiro, que antes custava cerca de 50 bolivianos, agora é vendido por até 110 bolivianos (aproximadamente R$ 80). A comerciante de um “açougue móvel” em La Paz explica que o custo elevado do transporte, que agora inclui voos, justifica o preço superfaturado. Esses frangos, anunciados como “de Santa Cruz”, vêm da região oriental do país, onde o produto é encontrado por cerca de 35 bolivianos.

Santa Cruz de la Sierra, polo econômico da Bolívia e uma das regiões menos afetadas pelos bloqueios, tornou-se o epicentro dessa nova logística. O Aeroporto Internacional Viru Viru virou um mercado aéreo, com caixas de isopor circulando nas esteiras de bagagem de voos domésticos. Passageiros preenchem essas caixas com frango, carne bovina e suína comprados a preços locais e os transportam para cidades afetadas pela escassez.

Nas lojas do aeroporto, a venda de caixas de isopor, especialmente as de 50 litros, disparou. Vilma Brito, vendedora de uma dessas lojas, relata a alta demanda, com caixas custando até 175 bolivianos (R$ 130). As caixas se tornaram onipresentes nas filas de check-in, onde passageiros as identificam com canetas para evitar confusões na retirada da bagagem. Para evitar problemas com as companhias aéreas, os produtos são transportados congelados, mas sem gelo para prevenir vazamentos.

Passageiros transformam viagens em missões de abastecimento

A jovem Khelen Maita, 21, admitiu que, além de levar mantimentos para a família, já fez o trajeto anteriormente com o objetivo de revender os produtos em La Paz. Ela comprou 24 frangos por 37 bolivianos cada e os revendeu por cerca de 100 bolivianos, mas, após cobrir os custos de viagem, o lucro foi mínimo. A passagem aérea de ida e volta para este trajeto pode custar em torno de 1.200 bolivianos (R$ 900) se comprada com antecedência.

Nora Alanoca, 54, aproveitou uma longa escala em Santa Cruz para abastecer parentes em La Paz. Chegando de ônibus de Buenos Aires, ela utilizou as horas livres para encher suas caixas de isopor com frango, carne, linguiça e embutidos. Ela acredita que os produtos congelados aguentarão o curto voo até o destino final.

Medidas governamentais e desafios persistentes

A situação levou o presidente Rodrigo Paz a assinar um acordo com a Confederação dos Trabalhadores da Bolívia (COB) e declarar estado de emergência no país. A medida permite o uso de forças militares para liberar os bloqueios de estradas. Na terça-feira (16), moradores de La Paz enfrentaram filas noturnas para comprar frango subsidiado a 18 bolivianos o quilo, com custos operacionais de transporte aéreo cobertos pelos Estados Unidos.

Mesmo Santa Cruz, antes relativamente imune, começou a registrar filas quilométricas em postos de gasolina nos últimos dias. Um taxista local descreveu a situação como caótica e incerta para o futuro abastecimento. A redução no número de bloqueios nas estradas, de mais de cem para menos de 50 na última semana, sugere uma possível melhora na situação, mas o impacto da crise logística e política ainda é profundo.

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