Avanço das apurações sobre o caso Master é travado por adiamentos em depoimentos chave
A Polícia Federal se vê diante de um cenário de incerteza na conclusão de inquéritos centrais da Operação Compliance Zero, que investiga o que é considerado um dos maiores escândalos financeiros e políticos do país. O que deveria ser a etapa final de coleta de informações tem se transformado em uma corrida contra o tempo, com depoimentos de figuras importantes sendo cancelados, remarcados ou simplesmente sem nova data definida. A expectativa inicial de fechar ao menos uma frente de investigação ainda em agosto foi frustrada, e o impasse se arrasta por quase dois meses.
O cronograma da PF sofreu um duro golpe com o adiamento de oitivas de nomes como o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o controlador do BTG Pactual, André Esteves, e o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Essas interrupções, muitas vezes justificadas por questões processuais como a falta de acesso integral aos autos, levantam suspeitas nos bastidores de que o período eleitoral e a incerteza política pós-eleição também influenciam a agenda das investigações. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela imprensa.
O impacto do calendário eleitoral e a busca por respostas
A proximidade do segundo turno das eleições e a consequente indefinição sobre o cenário político futuro são vistas por quem acompanha as investigações como um fator que dificilmente permitirá uma mudança no ritmo nos próximos dias. O caso Master envolve múltiplos centros de poder, incluindo o Executivo, o Congresso, o Banco Central, o BRB e o STF, o que torna o desfecho das apurações sensível a futuras alterações governamentais e na composição do parlamento. Essa variável, que não existia no início da investigação, adiciona complexidade ao processo.
O adiamento mais recente atinge testemunhas cruciais para esclarecer a atuação do Banco Central e sua relação com o Master. A PF busca reconstruir reuniões, comunicações e decisões envolvendo ex-servidores da autarquia sob suspeita de favorecer o banco de Daniel Vorcaro. A oitiva de Roberto Campos Neto, por exemplo, visava entender o seu conhecimento sobre a relação entre ex-servidores do BC e Vorcaro, e sobre eventuais favorecimentos ao antigo banco. O mesmo se aplica à tentativa de ouvir André Esteves, que teve seu depoimento remarcado sem nova data.
Vorcaro e a complexidade das oitivas pendentes
Daniel Vorcaro, preso há sete meses, prestou depoimento nesta quinta-feira (15), mas a oitiva não resolve o atraso considerável nos interrogatórios. A expectativa era que ele falasse sobre a tentativa de venda do Banco Master ao BRB e a negociação de carteiras de crédito com indícios de irregularidades. Apesar de ter respondido a perguntas, a defesa de Vorcaro sustenta a necessidade de conhecer integralmente os elementos que embasam as suspeitas para uma colaboração mais efetiva.
O caso Master se desdobra em múltiplos inquéritos, e cada oitiva de Vorcaro, que já teve depoimentos adiados ao longo do ano, é essencial para fechar o quebra-cabeça. O adiamento de outras testemunhas, como Augusto Ferreira Lima e o senador Jaques Wagner, também contribui para o estrangulamento da agenda. A PF, embora reconheça que nem todo adiamento impede a diligência, enfrenta o efeito acumulado, que comprime o tempo para análise e elaboração dos relatórios finais.
Um problema que se arrasta há meses
A dificuldade em ouvir personagens essenciais à reconstrução das operações do Banco Master e suas relações com instituições financeiras, autoridades e agentes políticos não é nova. Desde o primeiro semestre, a PF tem enfrentado suspensões e remarcações de depoimentos, muitas vezes sob a alegação de falta de acesso aos autos. A primeira fase da Compliance Zero foi deflagrada em novembro do ano passado, e desde então, quase duas dezenas de depoimentos considerados cruciais foram afetados. O problema ganhou força a partir de agosto e se intensificou entre o fim de setembro e o início de outubro, impactando diretamente o prazo de 60 dias de prorrogação que terminaria em outubro.
A magnitude da investigação, que começou apurando a fabricação de carteiras de crédito sem lastro e se expandiu para abranger suspeitas de fraude financeira, atuação de servidores do Banco Central, relações com agentes políticos, movimentos internacionais e contratos em todos os três poderes, explica a complexidade e a dificuldade em concluir as apurações. Cada depoimento adiado pode deslocar outras etapas que dependem de seu conteúdo, comprometendo a capacidade da PF de cruzar informações e finalizar os relatórios. O principal efeito desses adiamentos é a possibilidade de a investigação, que deveria estar em fase de conclusão, atravessar o período eleitoral e se estender para 2027, desafiando a PF a recuperar o cronograma sem abrir mão das garantias das defesas.
