A aquisição bilionária da AtaiBeckley pela gigante farmacêutica Eli Lilly por US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 11,2 bilhões) marca um ponto de virada significativo no campo dos tratamentos de saúde mental e no universo dos psicodélicos. A movimentação, que sepulta as ambições originais de pioneiros como Amanda Feilding, mais conhecida como a “madrinha dos psicodélicos”, sinaliza a entrada do capital mainstream em compostos que prometem revolucionar o tratamento de transtornos psiquiátricos.
Amanda Feilding, fundadora da Beckley Foundation em 1998 (originalmente para Avançar a Consciência), e posteriormente da Beckley PsyTech em 2019, dedicou anos à pesquisa e ao financiamento de estudos sobre substâncias psicodélicas. Sua visão era integrar esses “amplificadores de consciência” ao cuidado da saúde mental. Em 2025, a Beckley PsyTech foi adquirida pela Atai, empresa do investidor Christian Angermayer, resultando na AtaiBeckley, que agora se encontra sob o guarda-chuva da Eli Lilly.
O carro-chefe da AtaiBeckley é um spray nasal com 5-MeO-DMT, substância conhecida popularmente como “veneno do sapo” devido à sua origem em secreções do batráquio Incilius alvarius. A empresa também desenvolve um filme bucal contendo dimetiltriptamina (DMT), o ativo psicoativo da ayahuasca e da jurema-preta. Ambos os tratamentos visam pacientes com transtorno depressivo resistente a terapias convencionais, um mercado estimado em centenas de milhões de pessoas globalmente.
A aposta da farmacêutica no potencial terapêutico
A Eli Lilly, uma empresa farmacêutica trilionária, demonstra um interesse estratégico no potencial terapêutico do 5-MeO-DMT, embora em sua forma sintética e protegida por patente. O tratamento com este composto já recebeu o status de “terapia promissora” (breakthrough therapy) da FDA, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, e está em fase avançada de testes clínicos (fase 3). Caso o filme bucal com DMT também atinja essa etapa e ambos os produtos obtenham aprovação regulatória, a Eli Lilly poderá desembolsar cerca de US$ 1 bilhão adicionais à AtaiBeckley.
Em seu comunicado oficial, a Eli Lilly optou por uma linguagem técnica e sanitizada, referindo-se aos compostos como “neuroplastógenos” e evitando menções a termos como “psicodélicos”, “sapo”, “ayahuasca” ou “experiência subjetiva”. Srinivas Rao, CEO da AtaiBeckley, declarou que a empresa busca “demonstrar que a doença psiquiátrica é tratável em sua raiz biológica, e não apenas em seus sintomas”.
Paralelos históricos e o risco da elitização
A abordagem da Eli Lilly evoca lembranças da introdução dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) nos anos 1980, como a fluoxetina e o escitalopram, que foram comercializados como panaceias para a depressão, atribuída a um desequilíbrio bioquímico. Agora, a “raiz biológica” do sofrimento psíquico é apresentada como uma deficiência na neuroplasticidade, que o 5-MeO-DMT e o DMT supostamente restaurariam.
Críticos alertam que essa estratégia pode levar ao aprisionamento de experiências psicodélicas intrinsecamente transformadoras e de longa duração em moldes de consultas rápidas, visando a recuperação do vultoso investimento. A necessidade de gerar lucro pode resultar em tratamentos caros, seja para os pacientes ou para os sistemas de saúde. Além disso, a ausência de um acompanhamento psicoterapêutico robusto para auxiliar na integração da experiência psicodélica pode gerar a necessidade de aplicações futuras, maximizando os lucros em detrimento da profundidade do tratamento. A aquisição pela Eli Lilly, portanto, aponta para uma possível elitização de terapias com potencial revolucionário.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela imprensa especializada em biotecnologia e saúde.
