O fenômeno El Niño, que se manifesta com força crescente, já sinaliza impactos significativos na economia brasileira, com potencial para elevar os preços de alimentos e energia, além de comprometer o abastecimento de água. Especialistas alertam para um ciclo vicioso entre as mudanças climáticas e o aumento do custo de vida.
As anomalias climáticas trazidas pelo El Niño já começam a preocupar produtores e consumidores. Tradicionalmente, o fenômeno provoca secas severas na região Norte e chuvas intensas no Sul do país. No Rio Grande do Sul, que concentra 70% da produção nacional de arroz, o risco de enchentes, como as ocorridas há dois anos, pode prejudicar a safra deste grão, impactando diretamente a oferta e os preços.
A preocupação se estende a outras culturas essenciais para a economia e o abastecimento. Professores da FGV sinalizam que a quebra na produção de soja, milho, café e laranja pode variar entre 7% e 10%, caso o El Niño se confirme com forte intensidade. Essa redução na oferta de commodities agrícolas tem potencial para gerar um efeito cascata nos preços, afetando tanto o mercado interno quanto as exportações.
Impacto na Energia e no Abastecimento de Água
O regime de chuvas alterado pelo El Niño também afeta diretamente os reservatórios de água. A diminuição da capacidade de armazenamento não apenas compromete o abastecimento humano, como já é temido na região metropolitana de São Paulo, mas também impacta a geração de energia elétrica. Com a menor produção nas usinas hidrelétricas, o país tende a depender mais das usinas termelétricas, que operam com custos mais elevados e, consequentemente, encarecem as contas de luz.
Além do aumento no custo da energia, a dependência de termelétricas, movidas a óleo combustível ou carvão, representa um retrocesso ambiental, pois emitem mais carbono, intensificando o efeito estufa. Esse cenário é agravado pelo aumento da demanda por eletricidade, impulsionado pelas altas temperaturas que levam ao uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado, criando um ciclo vicioso de aumento de consumo e custos.
Mudanças Climáticas e o Agronegócio
O impasse enfrentado pelo agronegócio não se limita aos efeitos imediatos do El Niño. Há evidências crescentes de que as mudanças climáticas e a degradação ambiental já estão impactando a produtividade do setor. Estudos correlacionam o desmatamento, especialmente na Amazônia, com a diminuição das chuvas e, consequentemente, com a redução das safras. Pesquisadores internacionais identificaram que o desmatamento recente na região amazônica pode reduzir a precipitação sazonal em até 30% em áreas produtoras de soja, com perdas significativas na colheita, como 6% no Rio Grande do Sul.
Esses impactos, que se manifestam no bolso do consumidor através do aumento dos preços, demonstram a interconexão entre o clima, a produção de alimentos e a economia. A ciência aponta para a urgência de medidas de adaptação e mitigação para lidar com os efeitos cada vez mais presentes e severos dos fenômenos climáticos.
