Aos 13 anos, Grace já sofria com dores insuportáveis, descritas como um “arame farpado aquecido” em seu abdômen, que a levavam a ser medicada com morfina. No entanto, por muito tempo, ela sentiu que sua dor era desconsiderada por profissionais de saúde, que a viam como uma adolescente que “estava fazendo drama” para faltar à escola. Aos 14 anos, a jovem de Yorkshire, no Reino Unido, finalmente recebeu o diagnóstico de endometriose, uma condição crônica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva.
A jornada de Grace para obter um diagnóstico foi marcada por frustração e descrença médica. Durante anos, enquanto sua menstruação se tornava cada vez mais dolorosa, ela ouviu diversas explicações para seus sintomas, incluindo síndrome do intestino irritável, cisto, ansiedade e cólicas menstruais intensas. A própria ideia de endometriose era frequentemente descartada pelos médicos devido à sua juventude. “Eles diziam que eu era muito nova para ter endometriose”, relata Grace, que começou a menstruar aos 11 anos e sentia dores excruciantes já aos 13. A sensação era tão avassaladora que ela descrevia como se seus órgãos estivessem sendo dilacerados.
Quando os analgésicos caseiros se tornavam insuficientes, Grace precisava ser levada ao hospital, onde recebia medicações fortes, incluindo morfina, co-codamol e tramadol. A dependência dessas drogas fortes a preocupava. “É assustador porque não quero ter que depender delas para o resto da minha vida”, confessou. O que mais a afligia, contudo, era a percepção de que especialistas médicos não reconheciam a possibilidade de adolescentes sofrerem com a doença. “Nem mesmo um especialista acreditou em mim. E se um especialista não me ouve, quem vai?”, questionou.
Foi somente após insistência de sua família e a consulta a um segundo especialista particular que Grace obteve o diagnóstico. A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, podendo causar dor pélvica intensa, menstruação abundante e fadiga. No Brasil, estima-se que a doença afete entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva.
O longo caminho para o diagnóstico
O caso de Grace não é isolado. A organização Endometriosis UK aponta que é um equívoco comum pensar que apenas mulheres mais velhas são afetadas pela doença, que pode se desenvolver em qualquer idade após o início da menstruação. Faye Farthing, porta-voz da instituição, ressalta a necessidade de melhorar a educação sobre saúde menstrual para jovens. “Se quisermos garantir que a próxima geração não seja privada do futuro que merece”, afirma.
O tempo médio para o diagnóstico de endometriose pode ser longo. No Reino Unido, a média é de nove anos para mulheres mais velhas, enquanto no Brasil, a Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE) estima que esse período varie entre sete e dez anos. Em adolescentes, os sinais da doença nem sempre aparecem em ultrassonografias, embora novas tecnologias estejam em desenvolvimento para auxiliar na detecção precoce.
Além do impacto físico, a endometriose pode afetar a fertilidade. Grace, com apenas 14 anos, já foi alertada de que a doença provavelmente impactará sua capacidade de ter filhos no futuro, podendo não conseguir engravidar após os 30 anos devido a danos nos órgãos reprodutivos. Essa perspectiva a pressiona: “Preciso ter filhos nos próximos 15 anos, senão talvez não consiga.”
Reconhecendo os sinais em adolescentes
A ginecologista pediátrica Gail Busby explica que, embora cólicas menstruais sejam comuns em adolescentes, os médicos devem estar atentos a sintomas que fogem do normal, como faltas frequentes à escola ou impossibilidade de participar de atividades sociais. “Quando você está na cama e sua melhor amiga é uma bolsa de água quente, isso não é normal”, salienta. O caso de Grace, que apresentou sintomas graves aos 13 anos, não é incomum, segundo Busby, que atende pacientes ainda mais jovens em suas clínicas, incluindo uma especializada em endometriose para adolescentes.
O sofrimento causado pela endometriose pode ir além do físico, aumentando a probabilidade de ansiedade e depressão em jovens, pois a dor interfere em um período crucial de desenvolvimento educacional, emocional e social. “Deveríamos aproveitar a adolescência, mas elas não podem fazer o que gostam, o que seus colegas gostam de fazer”, lamenta Busby.
Recentemente, Grace passou por uma laparoscopia para remover a endometriose, esperando um alívio temporário dos sintomas. Foi aconselhada a usar contraceptivos hormonais para desacelerar o crescimento do tecido e diminuir a dor. Ao compartilhar sua história, Grace espera encorajar outras adolescentes a buscar diagnóstico sem medo. “Eu achava que estava ficando louca. Que tudo estava na minha cabeça”, diz. “Mas, na verdade, você conhece seu corpo melhor do que ninguém e sua dor é real.” As informações foram reunidas a partir de reportagem da BBC.
