A Copa do Mundo de futebol desperta paixões globais, mas para a comunidade iraniana nos Estados Unidos, o evento deste ano traz um dilema complexo: apoiar a seleção nacional ou aderir a um boicote como forma de protesto contra o regime islâmico. Em “Tehrangeles”, um reduto iraniano em Los Angeles, essa divisão reflete as profundas cicatrizes políticas e sociais deixadas pela Revolução Islâmica de 1979.
A antiga bandeira iraniana, com o leão e o sol, símbolo pré-revolucionário, é vista em vitrines e mercados de Westwood, bairro que abriga uma das maiores concentrações de iranianos fora do Irã. Estima-se que cerca de 740 mil iranianos vivam nos EUA, com metade concentrada na Califórnia e 230 mil na região de Los Angeles. No entanto, a proximidade do evento esportivo trouxe à tona um debate acirrado sobre a representatividade da seleção.
Para muitos, como Roozbeh Farahanipour, 54, um conhecido ativista da oposição iraniana em Los Angeles, a seleção é indissociável do regime autoritário. Farahanipour, que chegou aos EUA em 2000 após participar de protestos estudantis e enfrenta uma condenação à morte em seu país natal, declara sua aversão: “Tenho alergia à República Islâmica. Não quero assistir. Não quero ouvir o hino nacional. Não quero ver a bandeira.” A antiga bandeira, vetada pela FIFA e pelas autoridades iranianas, tem sido exibida por alguns torcedores, gerando tensões e ameaças de suspensão da partida por parte de Teerã.
Farahanipour critica a postura da FIFA em restringir manifestações políticas, argumentando que a liberdade de expressão deveria prevalecer, especialmente em solo americano. Ele compreende tanto os que protestam quanto os que preferem apenas assistir aos jogos, mas insiste que a seleção, ao vestir a camisa da República Islâmica, torna-se uma ferramenta de relações públicas do regime. Apesar disso, demonstra simpatia pelos atletas individualmente, reconhecendo que muitos usam a seleção como vitrine para buscar oportunidades no exterior.
Divisões e anseios da comunidade
O sentimento de desassossego é compartilhado por outros membros da diáspora. Uma proprietária de estabelecimento em Westwood, que preferiu o anonimato, emocionou-se ao relembrar sua juventude no Irã, onde chegou a ser presa antes de deixar o país. Ela expressa o desejo de torcer pela seleção, mas ressalta a dificuldade em dissociá-la do governo: “Eu amo o meu país, mas não o regime.” O medo de expor familiares que permanecem no Irã também a leva a evitar a exposição pública.
Em contrapartida, há quem defenda a separação entre a equipe e o governo. Javad Yeganeh, 57, proprietário de um café em Westwood, afirma categoricamente: “O time é diferente do governo.” Preocupado com os familiares que vivem no Irã e com as perdas em meio a conflitos, Yeganeh expressa o desejo de ver a seleção iraniana ter um bom desempenho na Copa, torcendo por uma vitória expressiva.
As divergências na comunidade se manifestam também em outros aspectos. Enquanto alguns criticam figuras políticas americanas, outros ostentam bonés com slogans como “Make Iran Great Again”, demonstrando visões distintas sobre o papel dos Estados Unidos no futuro do Irã. Mohammed Hafarn, 78, morador dos EUA há mais de duas décadas, permanece um torcedor fervoroso, argumentando que a seleção pertence a todos os iranianos, não ao regime. Ele também critica as restrições impostas à delegação iraniana e se mostra cético quanto à atuação dos EUA na busca por democracia no Irã.
Para Hafarn, os jogadores representam o país, não o governo. “No fundo de seus corações, os jogadores estão jogando pelo seu país”, afirma, reiterando seu apoio à equipe e o desejo de que ela saia vitoriosa, apesar das complexas nuances políticas que cercam o momento.
