Mulheres negras no Brasil e no mundo estão sendo incentivadas a tirar férias e a se permitir um período de descanso, com custos cobertos por organizações que veem essa pausa não como um luxo, mas como um ato de resistência e um caminho para a prosperidade.
A assistente social Nadjane Cristina dos Santos, 33, sentia o peso do esgotamento e da ansiedade no auge de seu trabalho com direitos humanos em Salvador. Foi nesse momento de fragilidade que um edital chamou sua atenção: a proposta de pagar férias para mulheres negras. Nadjane, mãe de três adolescentes e integrante do coletivo Incomode, que atua no subúrbio de Salvador, estava imersa no atendimento psicossocial a vítimas de violência doméstica, um trabalho que reativou memórias de sua própria vivência de abuso. “Eu estava tentando mudar o mundo, mas esquecendo que também precisava mudar minha casa, meu corpo, meu psicológico”, relata.
Seu relato a tornou uma das selecionadas na primeira edição do edital Descansa, Nêga, promovido pelo Agbara, um fundo filantrópico de mulheres negras no Brasil. A iniciativa concedeu a Nadjane uma viagem de férias com tudo pago, onde pôde levar uma acompanhante. Ela escolheu uma das mulheres que atendia, que sonhava em conhecer o Rio de Janeiro. A própria Nadjane também desejava revisitar a cidade, onde esteve anteriormente a trabalho. O primeiro dia da viagem foi dedicado a conversas profundas, permitindo um espaço de intimidade e acolhimento.
Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Fundo Agbara, explica a radicalidade da proposta: “Talvez uma das formas mais radicais de pensar prosperidade para uma mulher negra seja fazer com que ela passe um tempo sem produzir nada”. O Agbara, que tradicionalmente foca em transferências de recursos para negócios, carreiras e organizações lideradas por mulheres negras, expandiu sua atuação com o Descansa, Nêga, questionando quem, de fato, tem o direito de descansar no Brasil e reconhecendo a distribuição desigual de um bem precioso: o tempo.
A Sobrecarga e a Desigualdade de Tempo
Estudos como o da Organização Internacional do Trabalho (OIT), publicado em novembro de 2025, corroboram a necessidade de tais iniciativas. A pesquisa aponta que mulheres negras enfrentam uma sobrecarga significativamente maior nas atividades de cuidado, que incluem o zelo por idosos ou pessoas com deficiência, preparo de refeições, limpeza e criação de filhos. Em média, mulheres negras dedicam 22,4 horas semanais a essas tarefas, superando as 20,7 horas de mulheres brancas e as cerca de 12 horas de homens negros e brancos. Essa carga extra impacta diretamente sua participação no mercado de trabalho, resultando em menores taxas de emprego formal e maiores índices de informalidade. Dados do próprio Agbara revelam que, em 2022, mulheres negras receberam apenas 59% da renda dos homens.
O Conceito de Bem Viver e a Dimensão Política do Descanso
O Fundo Agbara adota o conceito de “bem viver”, associado a cosmovisões indígenas andinas e práticas ancestrais de comunidades negras. Este ideal defende que mulheres negras devem ter acesso à segurança, moradia, alimentação saudável, liberdade religiosa, autonomia corporal, cuidado, descanso, tempo e a possibilidade de sonhar. “O bem viver não abandona a luta contra a violência e o racismo, mas acrescenta outra pergunta: após garantir que não morramos, como queremos viver?”, questiona Juliana Gonçalves, pesquisadora e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo. Para ela, “sobreviver não pode ser o horizonte máximo destinado às mulheres negras. Queremos viver com dignidade e plenitude”.
Aline Odara ressalta a necessidade de prover os meios para que o descanso seja uma realidade, indo além da simples permissão. “Precisamos ter condições econômicas para alcançarmos o bem viver pleno”, afirma. Essa perspectiva rompe com a lógica capitalista de bem-estar puramente individual, defendendo que a prosperidade de uma mulher negra não pode ser dissociada do bem-estar de sua comunidade. Quando uma iniciativa de mulheres negras financia o descanso de outras, isso transcende o autocuidado, fortalecendo redes históricas de cuidado que remontam a quilombos e terreiros.
Expansão Internacional e a Luta Contra a Exploração
A segunda edição do Descansa, Nêga, encerrada em 31 de agosto, registrou mais de 2.700 candidaturas para apenas cinco vagas, demonstrando a alta demanda por este tipo de apoio. Diferente de outros editais do Fundo Agbara, esta iniciativa é inteiramente financiada pela própria organização, que busca parceiros alinhados à ideia de investir em qualidade de vida, não apenas em produtividade.
O Brasil não está sozinho nessa abordagem. Nos Estados Unidos, o Octavia Fund financia retiros e sabáticos para mulheres negras desde 2022, encarando o descanso como um direito de nascença e resistência à exploração histórica. A fundação Open Horizon também lançou o Stargazer Sabbatical Pilot, que oferece períodos de descanso e renovação para lideranças, reconhecendo que a saúde dos ativistas é crucial para a sustentabilidade dos movimentos sociais.
Tricia Hersey, fundadora do Nap Ministry e autora de “Descansar é Resistir”, defende que dormir e descansar são atos de resistência ao capitalismo e ao racismo estrutural. Ela argumenta que a diáspora africana produziu sociedades marcadas pela exploração do corpo negro como força de trabalho. “A mulher negra forte” pode soar como um elogio, mas a expectativa de que elas suportem tudo é prejudicial. “É aí que o descanso pode adquirir dimensão política. Descansar passa a significar dizer: meu corpo não existe apenas para produzir, servir, cuidar e suportar”, conclui Gonçalves.
Após sua experiência no Rio de Janeiro, Nadjane Cristina dos Santos retornou renovada, sentindo-se mais forte para perseguir sonhos represados e com a compreensão de que sua ausência permitiu à família se organizar. Atualmente, ela cursa o segundo semestre de Direito, um passo em direção a uma vida com mais dignidade e plenitude.
